Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
SOBRE O PSICANALISTA
apresentação
ATENDIMENTO
faça o seu agendamento
CONTATO
fale conosco
Homem na rua
Ela acorda de madrugada, arruma a casa, apronta café, almoço do marido, despacha a filha para a escola...


Todo dia, sem perceber, decidimos ficar ou ir embora... Uma parte de nós decide, em doses secretas e homeopáticas... Uma parte de nós faz contas, avaliações, e acumula forças na direção para a qual o todo se encaminha... Sem que o todo saiba...

Todo dia... E no entanto, na hora de decidir fisicamente, fazer a mala, juntar as coisas, a alma empaca e se pergunta: Por que ficar? Por que ir embora? 

Me recordo de uma circunstância onde estava no meio da noite depois de uma festa querendo encontrar um táxi para ir pra casa, e não vinha, fiquei parado ali por algumas horas... De repente veio um táxi fazendo manobras audazes para atender ao meu sinal. Santo motorista!!!!! Pensei enquanto entrava. Mas não era um santo, era uma santa...

Ao volante, com cabelos louros presos para não embaraçar no vento, uma mulher.

Na praça a mais de um ano. O marido, doente, deixou o emprego. Ela acorda de madrugada, arruma a casa, apronta café, almoço do marido, despacha a filha para a escola, dá uma limpada no táxi, rega as plantas e sai...

Volta tarde da noite, à hora que der, que tiver passageiro para levar para os lados da casa dela, "que não vou ficar gastando combustível à toa, só pra chegar em casa na hora certa".

Chegando apronta o jantar, lava e passa a roupa da família, e só então vai dormir...

Isto é, quando não tem bronca do marido... Porque ele reclama... E muito... Diz que ela chega tarde porque tem homem na rua, que pega homem com o táxi, que é uma vagabunda... De vez em quando bate nela...

Porque não larga esse homem?

"Bem que eu queria", diz ela. "Bem que eu gostava de largar tudo e ir pra casa da minha mãe lá em Minas."

Por que não vai?

"Porque lá", me explica, "a mulher descasada fica falada, é pouca vergonha."

Será por isso que ela não vai? Faço a perguntas, insisto. E depois de me relatar mais grosserias do marido, de me dizer o quanto não gosta dele, o quanto o odeia, me diz duas coisas mais, que esta ganhando com o táxi mais do que ele ganhava com seu emprego; e que não pode deixa-lo, "porque sem mim ele morre, coitado".

Mas sei bem que nenhuma conclusão é definitiva, e que o meu ponto de vista é apenas mais um. Ela, por exemplo, uma excelente motorista, competente que me leva enquanto desabafa, tem certeza absoluta de que não se separa por pura caridade cristã, por resíduo do afeto que um dia a ligou aquele homem, E também por correção, cumprimento do compromisso matrimonial que assumiu, e que, na sociedade de sua mãe, onde foi educada, é tão importante... E é até provável que, tendo aliviado a pressão na conversa comigo, chegue em casa com atitudes quase amorosas...

Ele por sua vez, o doente agressivo, deve ter certeza de que ela fica porque sem ele não é ninguém. Porque uma mulher precisa de um marido, mesmo entrevado e improdutivo, um marido que a justifique, mesmo se fica em casa enquanto ela sai por aí de táxi apanhando homens...

A verdade é que os três têm razão, embora parcialmente. Não há por que negar que ela tem por ele uma espécie de carinho residual. E pena também. E é fato que prefere aquele marido, mesmo tirânico e cheio de defeitos, à solidão malvista em uma pequena cidade mineira.

Ele é realmente para ela um ponto de referencia fundamental. E um dever. Mas ela usa a dependência dele para alimentar a sua onipotência... 

Não há uma única razão para ficar. Há várias, que, como num caleidoscópio, mudam de feitio e de importância de acordo com o ângulo de visão. E assim é sempre. Mesmo quando elegemos um motivo como sendo o único, outros se escondem atrás dele, às vezes até mais importantes.

Fico por dinheiro, pode dizer uma. Mas esquece de falar na insegurança, que faz com que se considere incapaz de ganhar seu próprio dinheiro. E da ligação filial que tem com o marido que sustenta.

Fico porque a gente se da bem na cama, é capaz de afirmar outro. Mas não diz que é na cama que eles resolvem as brigas, é na cama que veiculam ternura, é na cama que ele se encontra em profundidade, e que portanto não se trata apenas de sexo pelo sexo (coisa que poderia encontrar com outra), mas de toda a relação que a abertura sexual torna possível.

Para uso externo utilizamos somente a razão -escudo. Fica mais simples, e nos deixa menos expostos. Em contrapartida, os outros, confrontados com tantos pontos negativos e um único positivo, se perguntam (como eu fiz com a mulher do táxi) "por que não vai embora?"

A coisa complica quando nos limitamos à razão-escudo mesmo para o uso interno. Porque é mais conveniente, porque nos exige menos, ficamos com ela, tapando os ouvidos a todas as outras. Mas a conveniência acaba nos custando um boa dose de autoconhecimento, que seria indispensável para nos ajudar a finalmente sair da situação, ou ficar nela com mais prazer...

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clinico

em 17/09/2012

Voltar

Principal / Pense comigo / Contato / Agenda online
www.ronaldodemattos.com - Todos os direitos reservados 2009 - 2013