Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Faça o que quiser, seja feliz...
Se amo quero que o outro me ame... E que me ame só a mim... E que não me esconda nada...

Um tempo atrás ouvi essa frase: Toma minha filha, é seu agora... Esse relógio foi dado pelo seu avô quando ele voltou de uma viagem para se desculpar por ter ido antes a casa da amante... Como era de se esperar a menina guardou o relógio e a mágoa da frase...

Quanta dor escondida no vazio de palavras e carregada de sentimentos de uma avó para uma neta... A desconstrução da fantasia de um homem que seria o seu companheiro... 

A dor imaginaria de uma criança em relação aquela que é sua avó amada e perdida em magoas por algo que carrega por tanto tempo...

Depois de um tempo, aquela menina, quando jovem, esbarrou com amores necessários e os amores contingentes de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Que beleza de teoria!!!! Que confusão na prática!!!!

Hoje adulta ela confessa que ainda não resolveu esse problema... Nem eu, nem ninguém... Ou pelo menos, nem eu nem a maioria... E tem solução?

Se amo quero que o outro me ame... E que me ame só a mim... E que não me esconda nada... Mas porque amo, quero que o outro não se sinta preso, faça o que quiser, seja feliz... 

E também porque amo, reconheço ao outro o direito de me dizer somente o que quiser me dizer, e de ter seus segredos. Mas aquilo que penso e aquilo que sinto não conseguem chegar a um acordo.

E se ele ama outra pessoa, e se estiver na cama com outra, se compartilhar com outra a cumplicidade do seu segredo comum, eu sofro, sofro, sofro...

Bonito aquilo do Sartre ter um amor necessário, a Simone, do qual não abria mão e com o qual tinha um compromisso, mas que não o impedia de ter quantos amores contingentes quisesse... 

O amor necessário é para a vida, os amores contingentes são casualidades... Em teoria, o mesmo era válido para ambos... Mas sabemos que na prática Sartre contingenciou muito mais do que Simone, e que se ela teve um ou dois amores contingentes foi mais para não deixar cair a peteca da teoria sobre o qual a relação necessaríssima dos dois estava baseada.

A falta de interesse de Simone por suas eventuais contingências fica clara nas entrevistas e escritos autobiográficos... Podemos até dizer que ela amava outros para não perder Sartre, e para não se perder...

Pois Sartre havia imposto a teoria como condição sine qua non no início da relação, e ao aceitá-lo ela aceitou também a teoria, obrigando-se, por honestidade intelectual, a pô-la em prática.

Esse é um dos problemas da infidelidade, a necessidade de ter outras relações não costuma ser igual para os dois... Há sempre o que trai e outro que não trai, ou um que só passa a trair depois que é traído, ou um que trai muito e outro que trai pouco. Pois há sempre um que está mais satisfeito do que o outro na relação. Um que ama mais...

Ou um que por fantasia, eroticidade, neuroses, fase oral ou fase anal bem ou mal resolvidas, Édipo galopante ou adormecido, necessidade de afirmação ou quantas outras motivações quisermos desencavar, há sempre um...

E, consequentemente, há sempre outro que se sente degradado, no verdadeiro sentido da palavra, ou seja, diminuído de grau, passando de amor único e plenamente satisfatório para amor complementar, ou complementado, leia-se insatisfatório...

E esse é outro problema da infidelidade: o desejo absurdo e constante de preencher completamente as necessidades afetivas e eróticas da pessoa que amamos...

Se eu amo, e ela "é tudo pra mim", ou "eu tudo pra ela", a medida do meu amor está nesta totalidade, ainda que minima, é agora ocupada pela outra pessoa, e que, portanto, ela não me ama como eu a amo, ela me ama menos do que eu a ela...

E se ela me ama menos do que eu a ela, tenho dois motivos para sofrer. Um porque, apesar de todo o meu amor, não consigo torna-me um objeto satisfatório para ela, e falho portanto no principal desejo do amante, que é o de dar plena felicidade a amada.

Outro porque corro grave perigo sendo pouco amado, me torno substituível, mas sei que se ela me substituir quando me encontro em pleno amor, não terei como substituir a ela, que para mim é única.

E pior ainda, durante algum tempo, não terei como substituir a mim mesmo, trocar o eu diminuído, humilhado, desprezado com que ela me deixar, por outro eu tão brilhante e solar como esse que sou enquanto ela me ama...

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 13/05/2013

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