Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
SOBRE O PSICANALISTA
apresentação
ATENDIMENTO
faça o seu agendamento
CONTATO
fale conosco
Eu só amo a ti...
Quando duas pessoas se amam e se tem, está subentendido que o amor impedirá a entrada de terceiros na perfeição daquele círculo...

Outro dia estava assistindo o programa da Gabi no SBT e me deparei com a entrevistada que dizia sobre sua preocupação com o futuro. Interessante é que aquela moça a muito tempo veio passando por momentos constrangedores em relação à vida amorosa...

Lembre-me do caso da prisão do primeiro marido, das visitas no presidio, das revistas que lá se faz, também das entrevistas que naquele tempo ela havia feito em relação ao amor que tinha ao seu companheiro que estava na prisão... 

Quantas circunstâncias, quantos constrangimentos ela passou, dentro de um amor que com ela crescia dia-a-dia e com ele diminuía no mesmo ritmo...

Por fim, quando ele saiu da prisão eles terminaram seu relacionamento um tempo depois, por quê? Ela descobriu um caso de infidelidade... Quanta dor...

"A infidelidade começa onde o casamento acaba." Bela frase justificadora, segundo a qual o infiel só parte para a ação depois que seu casamento, ainda que de forma invisível, desabou.

Pena que não seja verdade. Estou cansado de ver infidelidades acontecendo à soltas em casamentos que não tem a menor intenção de acabar, e dos quais os próprios infiéis se dizem satisfeitíssimos. A infidelidade pode se beneficiar de um mau casamento, mas certamente não precisa dele para subsistir...

A única coisa de que a infidelidade realmente necessita é do desejo de romper um compromisso de exclusividade, mantendo porém o vínculo da relação...

Não se trata se quer de um compromisso verbal. Quando duas pessoas se amam e se tem, está subentendido que o amor impedirá a entrada de terceiros na perfeição daquele círculo. Ao dizer "eu te amo", o amante apaixonado está dizendo "eu só amo a ti", assumindo um compromisso de fidelidade...

A duração desse compromisso, porém, fica no ar... Supostamente, ele só estará obrigado a mantê-lo enquanto se mantiver no seu coração a intensidade daquele sentimento que lhe fez dizer "eu te amo". Intensidade que, como já vimos, o outro não pode medir, e que tem variantes infinitas...

Passado o tempo da concentração do amor, quando todos os desejos convergem para um único objeto, outros elementos começam a agir. Elementos que podem não ter nada a ver diretamente com o objeto e sua atuação, mas apenas com o sujeito, criando uma situação em que, embora ainda desejoso de manter aquele objeto pelo qual grande parte do amor subsiste, sinta necessidade de procurar um novo tipo de satisfação junto a outras pessoas que, não se constituindo em objeto de amor, são porém gratificantes sexualmente. "Durante os primeiros 10 anos de vida passional com ela, eu olhava as mulheres, mas não as via..."

Assim foi o relato do meu mestre de obras, em um bate papo na reforma da minha casa... Depois, a paixão se acalmou... mas apesar de amar minha mulher, eu começava a olhar as outras...

O que se caracteriza o ato infiel é exatamente a falta de amor inicial na relação paralela. Ou, pelo menos, a falta de confiança no amor que se manifesta...

João tem uma relação profunda com Maria, a quem ama... Encontra Tereza e se sente atraído por ela, mas não a ama. Deseja apenas ter uma experiência sexual e acha que não vale a pena destruir por isso a relação profunda que tem com Maria.

João leva Tereza para um motel, e depois volta sorridente para os braços de Maria, inaugurando, sem que este saiba, a sua infidelidade.

Ou então João encontra Tereza e se apaixona. Mas não tem modo de saber se essa paixão é das que morrem em si mesmas, ou se evoluirá para um amor. Na duvida, não quer se arriscar a perder Maria e ficar depois com um punhado de moscas na mão. 

Embora apaixonado, tece constantemente comparações entre o novo e o velho objeto, tentando estabelecer valores. Sabe que, na cegueira da paixão, pode se enganar. Então espera, traindo Maria, até ter suficiente certeza para poder tomar uma decisão.

Em ambas as situações o fato comum, é que, de início, João não pretende desfazer-se de Maria. Ser for descoberto, dirá candidamente: "mas eu te amo", frase que resultará incompreensível para ela, pois sendo exatamente a mesma que ele lhe disse para selar a relação e o compromisso da fidelidade, está sendo usada para justificar a quebra de um e de outro.

João poderá ir ao extremo, muito comum, de dizer a Maria que o fato de se relacionar com Tereza não só não diminui minimamente o amor que sente por ela, Maria, como o aumentava.

Embora isso para Maria soe como puro cinismo, João está sendo até sincero. Sair com Tereza, se ela não se constituiu em um novo amor, não toma nada de Maria.

João canaliza para ela desejos que já não estavam concentrados em Maria e que, provavelmente Maria não poderia satisfazer... E ao voltar do motel, fisicamente apaziguado e gratificado por ter atendido ao seu desejo, João tem a sensação de estar novamente escolhendo Maria, já que não ficou com Tereza, renovando através desta escolha sua vivencia de amor...

Ao mesmo tempo, por ter feito o que queria, sentirá sua relação com Maria não como uma imposição castradora, mas como um livre trânsito afetivo, bem mais leve e agradável...

Falta olhar para Maria... Ao contrário de João, cobrando lhe sua traição, ela está furiosa e ferida. No fundo, espera que do confronto surja alguma solução, que joão tenha meios de desfazer seu sofrimento, coisa que ele tenta fazer, ao dizer lhe "eu te amo". Mas quando a frase cai sobre Maria, ela a decodifica como o fez da primeira vez em que a ouviu, ficando com a resultante: "eu amo só a ti". 

Ora, isso na atual circunstância, não faz o menor sentido, pelo que Maria é levada a crer que João está mentindo agora, ou mentiu então... Numa dilaceração, Maria descobre, não de forma intelectual, mas no sentimento, que o amor de João por ela não é, e nunca foi, aquilo que ela pensava; que o amor de João, os sentimentos de João lhe são desconhecidos.

Ai estão dias pessoas diante do mesmo problema, com reações completamente diferentes. Maria viu despedaçar-se sua confiança em João; para ela, operou-se uma ruptura na relação, que vai obrigá-la a reestruturar seus sentimentos e que porá novamente em questão todas as razões que levaram à escolha... joão mudou, para Maria; e se quiser continuar com ele, ela terá que se adaptar à nova realidade...

Para joão não houve ruptura... Não foi nessa hora que Maria mudou aos seus olhos... Ela já havia mudado aos poucos anteriormente, ao perder seu efeito centralizador e totalizante. E a adaptação foi realizada por João através de sua atuação compensatória com Tereza...

Assim, enquanto Maria vive um fechamento, devido à sua perda de confiança em João, João vive uma abertura por ter sido afinal aceito por Maria com todo o seu potencial infiel...

Ou seja, duas pessoas que se queriam uníssonas reagem em pleno descompasso...

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 13/05/2013

Voltar

Principal / Pense comigo / Contato / Agenda online
www.ronaldodemattos.com - Todos os direitos reservados 2009 - 2013