Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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A palavra Corte
O cantor alimenta o imaginário, as mulheres se vêem procurando entre rosas um bilhetinho, e os discos do "rei" batem recordes de vendagem...

Aproveitando o dia de hoje cheio de simbolismo, um dia de reflexão sobre ganhos e perdas. Sobre a necessidade do dia para lembrar algo que deveria ser natural... 

O dia das mulheres me fez refletir enquanto vinha para o consultório o quanto algumas coisas perderam tal simbolismo diante de outra que vieram como ganho... 

A palavra Corte nos dias atuais nos faz sentirmos inapropriados ou muitas vezes ridículos e absolutamente ultrapassados. Parece uma coisa que não se usa mais, como chapéu, espartilho e outras coisas mais...

Ouvi uma jovem muito bonita dizer: "Se a gente for esperar que um homem nos faça a corte, morrei sentada!"

Sentadas certamente não ficam. Vai ela mesma ao ataque.

E me explica cândida, como se eu fosse marciano: " Se um cara tem direito de me azarar, por que eu não tenho o direito de azarar ele?" 

Azarar não é fazer a corte, é somente dar o primeiro passo, pedir o telefone, convidar pra sair. (E não posso deixar de estranhar a escolha dessa palavra, que significa exatamente o que parece: dar azar.

Como se o fato de ter sido escolhido implicasse má sorte.) Ela esta absolutamente convencida de que a corte acabou...

Mas não são só elas. Mulheres das mais variadas idades-se queixam de que "os homens não são mais como os de antigamente". Acabaram-se aquela cortesia de luvas brancas, aquele rondar solícito que antecedia a declaração de amor. 

Ninguém faz mais serenata debaixo da janela de ninguém. Os homens agora são mais diretos, quase agressivos, não fazem "romance", não cortejam...

Mas o que é a corte, afinal?

A maioria tem ideia romântica, que a faz coincidir com a definição de Aurélio Buarque de Holanda. Cortejar (do italiano corteggiare) é fazer ou dirigir cortesia, galantear, requestar, e mesmo, atenção, "lisonjear ou obsequiar com o intento de obter algo"...

E todo o espírito do corteggiamento suspiroso está nesta citação de A dança, de Martins fontes: "Mensurado, donairosismo, diserto, dameja, corteja, galanteia, idiliza, enquanto um Monsenhor virtuose toca, num cravo liral marchetado... o minuete de Exauder."

Os donairosismos mensurados andam um pouco fora de moda, e já não se tocam minuetes como antigamente. O máximo com que podemos contar é a canção romântica na voz de alguns cantores da MPB ou mesmo do Roberto Carlos: "Eu sou aquele amante a moda antiga, do tipo que ainda manda flores..." Ou mesmo a necessidade de afirmação, "Esse cara sou eu..."

O cantor alimenta o imaginário, as mulheres se vêem procurando entre rosas um bilhetinho, e os discos do "rei" batem recordes de vendagem... 

Da corte esperamos então que seja o prolongo, a ouverture do amor. Que prepare para as delícias que estão a caminho. E que diga, com a clara voz dos rituais, que antes mesmo da concretização amorosa já as mulheres já são cobiçadas, desejadas, amadíssimas.

Mas os homens não se fazem mais anteceder por flores, não concedem semanas de expectativas e rapapés...

Vão logo às vias de fato.

E porque não há mais ouverture, deduzimos que a corte morreu. Pela sua morte , aliás, já ouvi muitos culparem o feminismo, a nova postura assumida pelas mulheres (como se flores só fossem devidas a mulheres desmilinguidas).

Mas olhando as meninas que "azaram", me parece pouco provável que elas, pessoalmente, tenham matado o que quer que seja.

No afã de apontar assassinos antes de encontrar o cadáver, esquecemos que os elementos importantes do comportamento humano não acabam, mas se modificam. E que a corte é importantíssima.

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 19/05/2013

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