Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Psicanálise e religião III
Religiosidade a serviço do princípio da realidade, mas uma realidade que transcende o conceito positivista que embasou Freud. A devoção madura une os aspectos infantis aos adultos, perpassa e dá senti

 

A graça - Há um tom de surpresa para a atitude do pai que acolhe o filho que retorna estropiado: em vez de objetos consoladores ou leis, há um modelo de relacionamento pai-filho com elementos novos.A verdadeira experiência mística não somente destrói a identidade pessoal...?

Paul Vitz chamou Jesus de Anti-Édipo, mostrando que a história Sagrada não corresponde à história edípica. O pai do filho pródigo não corresponde a Laio, pai de Édipo. há lugar para pai e filho, não há vingança, mas restauração da filiação. Jesus nos apresenta uma imagem de Deus que desconcerta que desconstroi o sabido, retira do eixo das próprias projeções. Inicia com a imagem terrena - pai - mas desconcerta pelas diferenças.

O homem perde a voz ativa de construir a imagem de Deus somente a partir do seu interior e passa para a voz passiva de conhecer como é conhecido. Sai da posição ativa de fabricar o caminho a Deus pelas suas próprias obras - quer pela construção de imagens ou pelo cumprimento da Lei - para a voz passiva de aceitar o caminho já dado pela graça. Parece que, no decorrer da história, este tem sido o eixoda Boa Nova - é novo, não vem do nosso interior, nos é dado. E isto desconcerta, desconstroi, retira-nos do centro da história. Esta construção já não acontece nos moldes das fantasias infantis de fusão com a mãe, nem coincide com a representação edipica do pai.

E, paradoxalmente, equivale ao que Lacan propós como "supremo bem" aceitar a castração, a incompletude. A partir desta, conhecer a Deus não significa voltar à ter a completude perdida com Ele. Este é outro critério para descriminar uma fé alienante, patológica, de uma fé progressiva. Segundo Meissner, citado por Morano:

A verdadeira experiência mistica não somente não destrói a identidade pessoal, mas, de fato, possui uma enorme capacidade de estabilizar, sustentar e enriquecer essa identidade.Pode perfeitamente remeter ao passado mais antigo e primitivo e até favorecer regressões parciais, mas a partir dessas se podem estabelecer novos caminhos para voltar a um presente que desse modo, apresenta-se ampliado, esclarecido e enriquecido. (Morano, p.67)

Religiosidade a serviço do princípio da realidade, mas uma realidade que transcende o conceito positivista que embasou Freud. A devoção madura une os aspectos infantis aos adultos, perpassa e dá sentido à realidade, sem ignorá-la. Ajuda a simbolizar esta realidade e não aliena dela. não abre mão das mergens mentais nem da lei, mas não as transforma em supremo bem. E, talvez como São João da Cruz diz; possa haver momentos de noite escura da alma em que nem a imagem, nem a lei acompanhem - sem pai sem mãe, diríamos em bom português. A necessidade de pulverizar ídolos se fará necessária sempre que uma imagem se cristalizar como absoluta, sempre que impedir o contato com o totalmente Outro. Este me pede que ande pela fé, e não pela vista - semimagens e sem sandálias protetoras.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

 

REFERÊNCIAS:

 

Biblia Sagrada

FREUD, Sigmund. O futuro de uma Ilusão (1928);

FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Analise do Eu (1921);

FREUD, Sigmund. Moisés e o Monoteísmo (1939).

RICOEUR, Paul. Da Interpretação: Ensaio sobre Freud; Rio de Janeiro; Imago; 1977.

SAFRA, Gilberto. Sacralidade e fenômenos transacionais: visão winnicottiana. MASSINI, Marina e

MAHFOUD,Miguel. Diante do Mistério: Psicologia e senso religioso. São Paulo, Loyola, 1999.

VITZ, Paulo. Jesus, The Anti - Oedipus.

 

 

em 28/10/2009

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