Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
SOBRE O PSICANALISTA
apresentação
ATENDIMENTO
faça o seu agendamento
CONTATO
fale conosco
Carta - Muitos amantes e nenhum prazer
Casados há cinco anos, não o amo o bastante para ser fiel a vida toda...


 

Boa noite Dr. Ronaldo de Mattos, estou lendo sempre seus posters, no seu site, twitter Facebook e linkedin . Adoro principalmente os textos que falam sobre sexo.

Gostaria de uma conselho, espero poder algum dia conhecê-lo.

Já trai meu marido tantas vezes que até ´perdi a conta. Casados há cinco anos, não o amo o bastante para ser fiel a vida toda.

Mas não quero perdê-lo porque ele é bom, carinhoso, companheiro, compreensivo, e me dá segurança.

Sexualmente, nunca estive bem, não tenho orgasmo. Mas tenho prazer em dormir com outros, e com ele não.

Em cada nova aventura espero encontrar o homem "ideal", que me complete sexual e espiritualmente. Mas tudo acaba como começou, porque eu própria afasto as pessoas, contando que sou casada, e quem há de querer compromisso com quem já o tem?

As vezes penso que estou com o "ideal" em casa. Mas não o amo. E a cada dia me sinto mais culpada, mais vazia apesar de tanta movimentação.

O que o senhor me aconselharia? 

 

RESPOSTA

 

Obrigado por está acompanhando as publicações aqui no Facebook e no meu site e nos outros meios. Fico agradecido também por ter confiado e querer um conselho. Agora pense comigo...

 

Você é casada há mais de cinco anos, e traiu seu companheiro tantas vezes que perdeu as contas. Partindo do pressuposto de que não é mulher promíscua, chegamos à conclusão óbvia de que começou a trair seu marido não muito tempo depois do casamento.

Então não se trata de não aguentar ser fiel a ele pela "vida toda", que poderia configurar um cansaço devido ao tempo, mas de não aguentar ser-lhe fiel, ponto.

Você diz que não ama seu marido.Será que ama seus amantes? Parece improvável. Primeiro, porque são tantos, e ninguém ama, real e intensamente, tantas vezes. Segundo, porque você mesma diz que "tudo acaba como começou", ou seja, sem muito sofrimento, sem grandes dramas. E os amores verdadeiros, quando acabam, nos deixam não só muito sofridos, como modificados.

Chegamos a pergunta que, embora de outra forma, você mesma se faz, se não os ama, por que os quer?

Amantes não são apenas companheiros de cama. Nem são apenas prazer de momento. Amantes podem ser indispensáveis, companheiros naqueles jogos delicados e bem tecidos que a imaginação arma para compensar ausência da vida real, e torná-la suportável assim como ela é.

Digamos que sua vida não é exatamente o que você gostaria. Nem seu marido é exatamente o homem com quem você sonhava. Falta satisfação erótica, falta amor, falta vitalidade.

Então você sai à caça do homem com que sonha, que faria da sua vida aquela que você gostaria. 

Por outro lado, sua vida também não é assim tão má. Seu marido é bom, compreensivo e seguro. Dotes que você precisa muito, porque se sente inconstante, portanto sempre em risco e culpada, e assim necessita de compreensão.

Nesse sentido, ele é até melhor que os amantes, porque nenhum deles até hoje aguentou partilhá-la definitivamente com seu marido, eles vão embora quando sabem que você é casada, enquanto ele, ainda que alheio, a compartilha com eles a cinco anos. 

Espremida entre vantagens e desvantagens, você pode ter descoberto desde cedo que o jeito de equilibrá-las era "brincando" de procurar o homem ideal, tomando sempre o cuidado de fazer com que a relação acabasse antes de começar a se aprofundar.

Pois imagino que seja quando vocês estão mais íntimos, mais embalados, que você decidi contar a verdade.

E imagino também que a verdade que você conta não é apenas que é casada, mas, talvez até de maneira subliminar, aquela mais profunda, ou seja, que não quer, de modo algum, separa-se do seu marido.

E a conta de alguma maneira especial que obrigue o amante romper. Pois é fato que em outros contextos inúmeros homens não só aceitam, como até gostam, de manter relações com mulheres casadas. Algo você faz para que nenhum queira assinar um pacto desses consigo.

Está armando o jogo da imaginação. Imaginando que está realmente à procura de um homem ideal, e imaginando que pode encontrá-lo algum dia, você enche de vitalidade, de ansiedade e até mesmo de esperança um cotidiano conjugal que sem isso seria insuportavelmente cinzento. Mas ao mesmo tempo preserva esse mesmo cotidiano, no qual se sente garantida.

Poderíamos ir até mais além, e dizer que provavelmente você gosta de fazer sexo com os amantes porque, embora sem orgasmo, toda a relação é perpassada pela emoção. E não gosta de sexo com seu marido numa espécie de recusa, por não ser ele nem o amor, nem a aventura.

Ai já teríamos uma resposta à sua pergunta. Mas há um detalhe importante no seu e-mail. Você diz que às vezes tem a impressão de ter o homem "ideal" em casa.

Ou seja, usa a mesma palavra que utiliza em relação ao tal homem especial que anda buscando. Isso me faz pensar que, talvez, você inconscientemente saiba que seu marido é exatamente o homem ideal para você.

Um homem que a ama, a protege, mas a deixa solta o bastante para poder ter amantes à vontade, viver num clima quase juvenil de busca e experimentações constantes.

Poderia até ser que o amor tal qual você o sonha, possessivo e exclusivista como costumam ser os grandes amores, dificilmente a faria feliz.

"Ando vazia", você diz, "apesar de tanta movimentação". Mas de que adianta a movimentação se não sabemos por que existe e onde nos leva? Chega um ponto em que os jogos, por mais bem tramados que sejam, deixam de nos satisfazer. E em geral esse é o ponto em que começamos a questioná-los.

Ando culpada, você diz. Mas será culpa em relação a ele, ou a você mesma que "brincando" está apenas compensando a vida, sem realmente enfrentá-la? 

 

Coloquei aqui algumas provocações, meu conselho é que você procure um profissional para continuar essas provocações e reflexões sobre você mesma. Se quiser mande-me um e-mail que eu passo o endereço de um amigo que mora aí e vai atendê-la com muito carinho.

Um abraço e boas reflexões.

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 06/06/2013

Voltar

Principal / Pense comigo / Contato / Agenda online
www.ronaldodemattos.com - Todos os direitos reservados 2009 - 2013