Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
SOBRE O PSICANALISTA
apresentação
ATENDIMENTO
faça o seu agendamento
CONTATO
fale conosco
Carta - De repente com o meu irmão
Não sei dizer como aconteceu, só sei que quando dei conta de mim estávamos nus no quarto dele, ele me beijando com paixão. Foi o primeiro orgasmo da minha vida...


 

Dr. Ronaldo de Mattos, estou confusa e resolvi escrever, para ter uma direção do que fazer. Tenho lido você e espero que possa me orientar. Sei que o senhor tem colocado os e-mails no Facebook, assim vou desabafar. 

Estou com muita vergonha do que aconteceu, não tenho coragem de me abrir com ninguém da minha família, e não consigo usar a palavra incesto para o que se passou entre meu irmão e eu.

Não pense que somos avançados e liberais, pelo contrário, somos muito rígidos, reservados e controlados.

Eu tenho 23 anos, meu irmão 29, somos de uma família sem problemas, bem de dinheiro. Meu irmão tinha uma noiva, eu, um namorado.

Foi justamente a ruptura com o namorado que deslanchou tudo.Terminamos porque eu lhe confessei que não tinha prazer sexual nenhum com ele. 

Aquela noite, depois de ele me insultar de toda maneira, cheguei em casa desesperada e molhada de chuva. 

Só estava meu irmão, e foi ele que me consolou. Não sei dizer como aconteceu, só sei que quando dei conta de mim estávamos nus no quarto dele, ele me beijando com paixão. Foi o primeiro orgasmo da minha vida.

Depois desta noite não conseguimos mais nos encarar. Ele rompeu com a noiva, isolou-se. acabou a nossa amizade. E eu não entendo porque tive tanto prazer com meu irmão, por que de repente fiquei tão consciente dos seus olhos azuis, do seu corpo. Será que somos anormais, doentes?

 

 

RESPOSTA

 

Se vocês fossem anormais, como você teme, o incesto não precisava ser um tabu. Pois para que criar interdição tão grave para algo que só poucos, os anormais quereriam cometer? 

O incesto é o tabu mais antigo e rígido da humanidade justamente porque as pulsões eróticas do ser humano o levam a desejar acasalar-se com objetos sexuais mais próximos e aos quais já está ligado pelo afeto, seus irmãos e pais.

Tão forte são as pulsões que, apesar da força da interdição, o incesto é muito mais comum do que hoje quisemos ver. A sociedade, que não o admitia, sempre se recusou a encará-lo. E secreto, e sofrido, ele se ocultou no silencioso reduto das famílias ao longo dos séculos. 

Hoje, quando o conceito de privacidade ganha outros contornos e a palavra de ordem é transparência, livros começam a aparecer com o relato de relações incestuosas, e as estatísticas traçam um perfil mais realista da sua incidência.

"Não somos avançados ou liberais", você escreve, "somos muito rígidos e controlados". E percebo que esta constatação aumenta ainda mais sua perplexidade.

Como dois jovens de sólidos princípios morais caem em uma atitude tão contrária a tudo em que sempre acreditaram?

Entretanto, é por aí mesmo que você pode começar a entender melhor o que aconteceu. Pois foram justamente o rigor e o controle que ajudaram a jogar vocês na mesma cama. É obvio que você sempre achou seu irmão muito atraente. Mas, por ser tão rígida e controlada, nunca se permitiu conscientizar essa atração. Seu irmão era antes de mais nada, o fruto proibido, que podia sequer ser cobiçado. Só agora, depois que a cobiça tão longamente reprimida levou você a colher o fruto , rasgando o véu da interdição, percebe a beleza azul dos olhos,a virilidade do seu corpo. Seu irmão não ficou mais atraente do que antes. Você é que passou a perceber a atração.

Pode ser essa a mesma razão pela qual você, que nunca tinha tido prazer com seu namorado, encontrou o orgasmo com seu irmão. Seu irmão não é forçosamente melhor amante.

O mais provável é que você, tão controlada em suas emoções, não conseguisse se soltar quando nos braços do namorado, impedindo o corpo de encontrar sua natural satisfação. Mas a emoção que levou aos braços do seu irmão era avassaladora, tão avassaladora que você literalmente "saiu do ar" e não sabe até hoje como as coisas se passaram.

Sobre essa emoção você não podia ter controle. E o corpo, pela primeira vez livre da razão e dominado pela emoção, seguiu seu rumo natural até o orgasmo.

Você não é uma jovem "avançada e liberal". Se fosse, talvez tivesse mais intimidade com esses assuntos. Saberia então que a atração entre irmãos é praticamente uma constante, e que se torna muito menos ameaçadora quando é trazida para a Luz, quando a gente a libera brincando com ela, e dinamizando-a através dos sonhos. 

Acredito que você nunca se permitiu ter sonhos incestuosos com seu irmão. Ou, se os teve, tratou de apagá-los ao acordar. Assim, foi acumulando dentro de si, sob pressão, um desejo que poderia ter extravasado de outras maneiras, sem precisar chegar às vias de fato.

A pressão poderia nunca ter passado do tolerável. Mas naquela noite somou-se ao choque emocional pela briga com o namorado, potencializou-se. E deu no que deu.

Agora você e seu irmão se encontram nos corredores da casa e não se olham. Não trocaram uma palavra sobre o que aconteceu, enclausuram-se na vergonha. Ou seja, voltaram, à velha repressão.

Assim como antes negavam a atração, agora negam o incesto. Este é o sistema melhor para acumular nova pressão, que poderá explodir adiante de outro encontro sexual roubado à consciência, ou que poderá implodir com a integridade psíquica de um dos dois, senão de ambos.

A vergonha não será nunca sua conselheira. Ela lhe ensina a esconder o ato vergonhoso, a sofrê-lo em silêncio. Ela lhe diz que a culpada é você, e não a ajuda a entender as motivações que a levaram a agir.

A vergonha é, sobretudo, filha predileta do preconceito, que nos acorrenta a uma expiação cega e sem limites.

Converse com seu irmão. A amizade que existia entre vocês não pode terminar por causa de um ato socialmente condenado. Ela deve ajudar vocês a livrar-se dele. Sendo neste caso o ideal que procurem juntos o aconselhamento de um terapeuta. Vou passar para você um e-mail com alguns nomes, não deixe de procurar e se orientar melhor.

Qualquer coisa estou por aqui, é só escrever.

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 06/06/2013

Voltar

Principal / Pense comigo / Contato / Agenda online
www.ronaldodemattos.com - Todos os direitos reservados 2009 - 2013