Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Carta - Incesto, a palavra que não digo
Meu pai me deseja. Uma vez conseguiu o que queria, e eu nunca falei isso com ninguém. Não reagi, acho que foi o choque do que aconteceu, pois eu não esperava...

 

Boa noite, dr. Ronaldo de Mattos, li sua resposta sobre o que aconteceu com uma moça e seu irmão em relação ao encontro dos dois, acho que é DE REPENTE COM MEU IRMÃO.

Isso fez eu senti vontade de contar minha situação e pedi uma orientação em relação à algo que já me machucou e machuca até hoje.

Meu pai me deseja. Uma vez conseguiu o que queria, e eu nunca falei isso com ninguém. Não reagi, acho que foi o choque do que aconteceu, pois eu não esperava.

Tenho 24 anos, sou solteira, extrovertida e livre. Mas nada da certo para mim. Não encontro alguém que me ame, Tenho dois amigos, um que acho que amo mas que me vê somente como uma amiga.

E outro com quem vou regularmente para a cama, mas sem emoção e sem compromisso. Não tenho amigas, não encontro nenhuma que queira realmente uma amizade.

As vezes tenho vontade de sumir, fazer uma loucura. Tenho medo do futuro. Meu pai não vale nada, é mulherengo, eu o odeio, e às vezes sinto pena dele.

Dr. Ronaldo, vezes outra fico pensando o que eu deveria fazer, pois vivo essa situação sempre em minha mente e vendo-o constantemente, tenho dentro de mim uma mistura muito grande de ódio e outro sentimento que não sei dizer.

O que eu posso fazer? Me ajude?

 

 

RESPOSTA

 

Lendo seu e-mail, fiquei pensando na questão e na forma de escrever para você. Primeiro fico feliz por ter sido alcançada por esse texto que você mencionou, essa é minha intenção. Alcançar e poder orientar o máximo possível de pessoas a procurarem ajuda para questões emocionais. 

 

Pense comigo:

 

Você se queixa de que não consegue ligar-se afetivamente a ninguém. Nenhum amor ou amizade profunda vêm preencher sua necessidade de afeto.

No entanto, se diz extrovertida e livre. Talvez não seja nem uma coisa, nem outra.

Vamos voltar para trás. Houve um tempo que existia na sua vida um afeto intenso. O seu amor de filha pelo pai. Um amor que, por sua própria natureza, é feito de confiança.

Mas essa confiança foi quebrada de maneira brutal. E parece inevitável que depois dessa traição você não conseguisse abrir-se para nenhuma outra relação de entrega.

Você escreve: "Nunca falei isso com ninguém". Como pode pode ser extrovertida a pessoa que guarda segredo tão terrível? Como pode haver relação de amor ou de verdadeira amizade ali onde a ocultação precisa ser mantida?

O silêncio é sempre o refúgio das pessoas vítimas de incesto. há um tempo atrás assistir um documentário de depoimento de uma família. Pai, mãe e filha narravam como, durante anos, o pai tivera relações sexuais com a filha, proibindo-a de contar qualquer coisa à mãe, e ameaçando-a de morte se o fizesse.

Mantendo o silêncio, por medo, a menina tornava-se porém cúmplice do pai, e ao sofrimento pelo que estava acontecendo acrescentava o sofrimento pela culpa em relação à mãe.

Só muitos anos depois a mãe veio a saber, a situação ficou exposta domesticamente. Agora a moça, que eu via ali na tevê já mulher feita, fazia aquele depoimento para milhões de pessoas que compram aquele DVD, como se estivesse sobrepondo a imensa fala ao silêncio que lhe havia sido imposto.

Não era despudor. Ela entregava suas lembranças tentando esvaziar o passado de todo o seu veneno. Ela estava lavando-se...

Você escreve ainda: "Eu não reagi, acho que foi o choque... eu não esperava". Reagir ao incesto é muito difícil. Pois uma das coisas que caracterizam é que o violador tem ascendência moral sobre o violado. Mais fácil é reagir ao estupro, que é tão somente um gesto de violência física. Mas no caso do incesto há todo um esquema de dominação anteriormente estabelecido. De alguma maneira, a vítima "pertence" ao seu algoz.

Em um livro, que se não me engano se chama justamente "Eu nunca contei a ninguém, autora Ellen Bass, Louise Thornton, várias mulheres relatam como foram estupradas por pais, padrastos ou irmãos. E o que perpassa todas as narrativas é justamente a dificuldade de reação. Até mesmo porque a certeza do que vai acontecer só se concretiza quando o fato já está acontecendo. Até o último minuto, a vitima se nega a entender. 

A falta de reação, nesse caso, não significa concordância. É apenas o resultado do supremo espanto, da não aceitação da realidade.

Quando uma menina ou moça é estuprada pelo pai, há muitos sentimentos envolvidos. A filha vive o estupro como uma demonstração da violência do pai, mas também como uma declaração de amor. Ela se sente objeto do desejo do pai. Um desejo que, de certa maneira, é lisonjeiro para ela.

Reagir ao incesto equivale a negar esse amor esse desejo. Mais ainda, é forma segura de trocá-lo por ódio.

E isso pode ser quase impossível para a filha, que sempre se esforçou para conquistar o afeto do pai. Você mesma se divide em ambivalência, ora odiando seu pai, ora tendo pena dele.

A isso se acresce o desejo erótico inconsciente da filha pelo pai, que, numa situação de violência, encontra justificativa para sua vazão.

E com isso tudo comprimido no peito, inconfessado e obscuro, com tudo isso pesando nos seus relacionamentos afetivos, como você pode acreditar-se livre?

A liberação só virá quando você, talvez com ajuda de um terapeuta , puder reexaminar seus sentimentos passados e presentes, desfazendo os nós que impedem a vida de dar certo para você.

Vou passar três nomes de bons profissionais que trabalham nesta cidade, dentre eles duas mulheres. Gostaria que você fosse aos três e conversa-se a entrevista inicial e só depois de ir aos três, julga-se qual deles você se sentiu mais a vontade para fazer um tratamento. Isso é muito importante para que qualquer tratamento de certo.

Um abraço e estarei aqui para qualquer duvida.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 06/06/2013

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