Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Carta - Homossexual, sim ou não?
Será que ainda tenho alguma chance de mudar? Queria muito saber a causa de gostar de mulheres, já que sou bonita, inteligente, de nível social elevado e posso me relacionar com homens interessantes...


Doutor estou ficando quase doida de tanto que minha cabeça está à mil. Gostaria muito de um conselho seu, estou me sentindo sufocada com tantas coisas que estou lendo, vendo e ao mesmo tempo, sentindo dentro de mim uma confusão...

Desde os 12 anos, tenho uma certa atração por minhas amigas. Aos 16 anos conheci uma mulher entendida, tivemos um caso durante cinco anos, nos amamos muito.

Mas com tudo isso nunca deixei de gostar de sair com homens. Sou muito bonita, atraente e feminina. E agora decidi largar a vida de entendida e namorar firme um rapaz.

Só que quando vejo uma mulher bonita ou estou com algumas das mulheres com quem me relacionei, me sinto insegura. Penso se devo, ou não, mudar. Estou muito preocupada, pois preciso e quero deixar essa vida de entendida.

Será que ainda tenho alguma chance de mudar? Queria muito saber a causa de gostar de mulheres, já que sou bonita, inteligente, de nível social elevado e posso me relacionar com homens interessantes. Seria o caso de fazer algum tratamento?

Por favor me ajude a buscar uma resposta para essa inquietação dentro de mim.

 

RESPOSTA

 

Minha querida esse tema nos últimos temos está fervendo, até hoje me ausentei de escrever sobre o tema,mas, todos tem o seu dia de respostas.

Parto do princípio jurídico, uma vez que um julgamento tem um clamor social muito grande pode inconscientemente alterar a percepção dos jurados em relação aos fatos. Mas vou responder sua pergunta com carinho, acreditando que muitas pessoas estão sendo bombardeadas por vários tipos de informação na Imprensa em geral.

Chama logo a minha atenção o fato de você não usar, no seu e-mail, a expressão homossexual, mas apenas entendida. Não escolhemos as palavras por acaso. Ao negar a palavra homossexual, você deixa bem claro que nega também a condição. Por outro lado, sua escolha não deixa de ser justificada, pois ter tido um caso amoroso com pessoa do mesmo sexo pode não ser o suficiente para definir você como homossexual.

Pode-se ter um caso, ou mais, homossexuais, e enveredar depois por caminhos heterossexuais. 

hoje em dia, felizmente, os conceitos são bastante elásticos e permitem, inclusive, livre trânsito bissexual.

Para muitas pessoas, o que interessa não é saber se determinado alguém é deste, ou daquele sexo, e sim a intensidade com que se sentem atraídas por esse alguém.

Trata-se de relacionar-se com quem realmente desperta nosso desejo, e não apenas com quem a sociedade, a família, ou os amigos esperam que nos relacionemos.

Mas nem sempre é fácil chegar a uma definição sexual. Numa pesquisa iniciada há um ano pelas secretárias de Saúde e Educação de São Paulo, e agora divulgada, foram entrevistados 2.815 jovens entre 14 e 19 anos, que responderam a um questionário de 50 itens. 

Deles, só 2,9% dos meninos relatam experiências homossexuais, enquanto 5% das meninas disseram que preferem relacionar-se sexualmente com outras mulheres.

É pouco provável que sejam todas homossexuais. Delas, só algumas continuarão desejando mulheres, enquanto as outras passarão a se interessar por homens. Por que então essa preferência juvenil por pessoas do mesmo sexo?

Numa primeira instância, a própria sociedade é responsável por isso ao separar meninas de um lado e meninos do outro. O parceiro do mesmo sexo está assim sempre ao alcance, e sem despertar suspeitas. Duas primas podem passar a tarde inteira trancadas no quarto ouvindo música, e até mesmo dormirem juntas, sem causarem qualquer tipo de inquietação na família. O mesmo diga-se em relação a duas jovens amigas. 

Mas certamente haveria um deus-nos-acuda se trancados no quarto estivessem um primo e uma prima, ou, pior ainda, uma moça e seu amigo.

Além disso, a pessoa do mesmo sexo pode parecer menos ameaçadora. Uma mulher é para outra mulher uma semelhante, uma companheira. De companheira a parceira de jogos sexuais passa-se sem graves ameaças, pois uma mulher não é nunca a que penetra, a que violenta, a que deflora. E, sobretudo, não é nunca a que engravida.

Por outro lado, enquanto há pessoas de definição sexual muito marcada, existem outras mais hesitantes, que sentem igual atração por homens e mulheres, sem conseguirem chegar a uma decisão sobre si mesmas. Às vezes essa decisão ocorre com o tempo. Às vezes a bipolaridade se mantém vida afora.

E é no âmbito dessa indecisão que o medo pode ocorrer.

Medo da diferença. Medo de ter que se confrontar com uma realidade homossexual.

Ao se aceitar como homossexual, sobretudo quando essa aceitação ocorre tardiamente, o individuo tem que repensar seu próprio eu. Ele, ou ela, que até então vinha se considerando como pertencente a um sexo, e até fazendo fantasias futuras de casamento e filhos dentro de uma previsibilidade biológica, terá que acostumar-se a uma nova imagem de si. 

A imagem de alguém que, saindo do grande bloco hétero, passa a integrar-se a comunidade gay.

Você pergunta se ainda tem "chance de mudar". A chance de mudar é um dos grandes direitos do ser humano, e você poderá tê-la a qualquer momento da sua vida. Mas a mudança deveria vir de dentro, originada pelo seu desejo erótico, e não por um certo medo da homossexualidade que parece tê-la invadido.

Se você mudar porque "precisa", porque "quer", e não porque deseja, corre o risco de frustrar sua sexualidade, abrindo um caminho de insatisfação bem maior do que aquele que trilha atualmente. E o fato de poder relacionar-se "com homens interessantes" só terá realmente valor na medida em que esses homens forem interessantes para você também do ponto de vista sexual.

Um tratamento, como você sugere, pode ser uma boa opção. Mas não para curar você de algum mal, já que não tem nenhum. Nem para reconduzir você a uma espécie de ordem social. Mas sim para responder às perguntas todas que se faz, permitindo que se conheça e se ame com as suas verdades.

Vou encaminhar para você o nome de três bons profissionais e amigos da psicanálise, para que possa ir fazer uma entrevista com cada um e decida com quem você gostaria de caminhar.

Um abraço;

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 06/06/2013

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