Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Esta elaboração das resistências pode, na pratica, revelar-se uma tarefa árdua para o sujeito da análise e uma prova de paciência para o analista.

Recordar, Repetir e Elaborar (Novas Recomendações sobre a Técnica da Psicanálise)Recordar, repetir e elaborar

“A mente que se abre a uma nova idéia, jamais volta ao seu tamanho original”.

Albert Einstein

 

Resumo:

Em sua primeira fase – a da catarse de Breuer – ela consistia em focalizar diretamente o momento em que o sintoma se formava, e em esforçar-se persistentemente por reproduzir os processos mentais envolvidos nessa situação, a fim de dirigir-lhes a descarga ao longo do caminho da atividade consciente. Recordar e ab-reagir, com o auxilio, era a que, àquela época, se visava.

A resistência deveria ser contornada pelo trabalho da interpretação e por dar a conhecer os resultados desta ao paciente.

As situações que haviam ocasionado a formação do sintoma e as outras anteriores ao momento em que a doença irrompeu conservaram seu lugar como foco de interesse, mas o elemento da ab-reação retrocedeu para segundo plano e pareceu ser substituindo pelo dispêndio de trabalho que o paciente tinha de fazer por ser obrigado a superar sua censura das associações livres, de acordo, com a regra fundamental da psicanálise.

Finalmente, desenvolveu-se a técnica sistemática hoje utilizada, na qual o analista abandona a tentativa de colocar em foco um momento ou problema específicos.

Esquecer impressões, cenas ou experiências quase sempre se reduz a interceptá-las. Quando o paciente fala sobre estas coisas “esquecidas”, raramente deixa de acrescentar: “Em verdade, sempre o soube; apenas nunca pensei nisso. Amiúde expressa desapontamento por não lhe vierem à cabeça coisas bastantes que possa chamar de “esquecidas” – em que nunca pensou desde que aconteceram.

O “esquecer” torna-se ainda mais restrito quando avaliamos em seu verdadeiro valor as lembranças encobridoras que tão geralmente se acham presentes. Em certos casos, tive a impressão de que a conhecida amnésia infantil, que teoricamente nos é tão importante, é completamente contrabalançada pelas lembranças encobridoras.

Trata-se simplesmente de saber como extraí-lo delas pela análise. Elas representam os anos esquecidos da infância tão adequadamente quanto o conteúdo manifesto de um sonho representa os pensamentos oníricos.

Outro grupo de processos psíquicos – fantasias, processos de referência, impulsos emocionais, vinculações de pensamento – que, como atos puramente internos, não podem ser contrastados com impressões e experiências, deve, em sua relação com o esquecer o recordar, ser considerado separadamente.

Nestes processos, acontece com extraordinária freqüência ser “recordado” algo que nunca poderia ter sido “esquecido”, porque nunca foi , em ocasião alguma, notado – nunca foi consciente.

Nas muitas formas diferentes da neurose obsessiva, em particular, o esquecer restringe-se principalmente à dissolução das vinculações de pensamento, ao deixar de tirar as conclusões corretas e isolar lembranças.

Há um tipo especial de experiências que ocorreram em infância muito remota e não foram compreendidas na ocasião, mas que subseqüentemente foram compreendidas e interpretadas. Obtêm-se conhecimento delas através dos sonhos e é, se obrigado a acreditar neles com base nas provas mais convincentes fornecidas pela estrutura da neurose.

O paciente não diz que recordar que costumava ser desafiador e critico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para com o médico. Não se recorda de como chegou a um impotente e desesperado impasse em suas pesquisas sexuais infantis; mas produz uma massa de sonho e associações confusas, queixa-se de que não consegue ter sucesso em nada e assevera estar fadado a nunca levar a cabo o que empreende. Não se recorda de ter-se envergonhado intensamente de certas atividades sexuais e de ter tido medo de elas serem descobertas; mas demonstra achar-se envergonhado do tratamento que agora empreendeu e tenta escondê-lo de todos. Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que esta repetindo. Podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out).

O que nos interessa, acima de tudo, é, naturalmente, a relação desta compulsão à repetição com a transferência e com a resistência  Logo percebemos que a transferência é, ela própria, apenas um fragmento da repetição e que a repetição é uma transferência do passado esquecido, não apenas para o médico, mas também para todos os outros aspectos da situação atual.

Quanto maior a resistência, mais extensivamente a atuação (acting out) (repetição) substituirá o recordar, pois o recordar ideal do que foi esquecido, que ocorre na hipnose, corresponde a um estado no qual a resistência foi posta completamente de lado.

Mas se, a medida que a analise progride, a transferência se torna hostil ou excessivamente intensa e, portanto, precisando de repressão, o recordar imediatamente abre caminho à atuação (acting out). Daí por diante, as resistências determinam a seqüência do material que deve ser repetido. O paciente retira do arsenal do passado as armas com que se defende contra o progresso do tratamento – armas que lhe temos de arrancar, uma por uma.

Tudo o que já avançou a partir das fontes do reprimido para sua personalidade manifesta – suas inibições, suas atitudes inúteis e seus traços patológicos de caráter. Repete também todos os seus sintomas, no decurso do tratamento.

E podemos agora ver que, ao chamar atenção para a compulsão à repetição, não obtivemos um fato novo, mas apenas uma visão mais ampla.

O recordar, tal como era induzido pela hipnose, só podia dar a impressão de um experimento realizado em laboratório. O repetir, tal como é induzido no tratamento analítico, segundo a técnica mais recente, implica, por outro lado, evocar um fragmento da vida real; e, por essa razão, não pode ser sempre inócuo e irrepreensível. Esta consideração revela todo o problema do que é tão amiúde inevitável – a “deterioração durante o tratamento”.

A resistência, contudo, pode explorar a situação para seus próprios fins e abusar da licença de estar doente. As táticas a serem adotadas pelo médico nesta situação são facilmente justificadas. Para ele, recordar a maneira antiga – reprodução no campo psíquico – é o objetivo a que adere, ainda que saiba que tal objetivo não pode ser atingido na nova técnica. Ele está preparado para uma luta perpetua com o paciente, para manter na esfera psíquica todos os impulsos que este último gostaria de dirigir para a esfera motora; e comemora como um triunfo para o tratamento, o fato de poder ocasionar que algo que o paciente deseja descarregar em ação seja utilizado através do trabalho de recordar. Se à ligação através da transferência transformou-se em algo de modo algum utilizável, o tratamento é capaz de impedir o paciente de executar algumas das ações repetitivas mais importantes e utilizar sua intenção de assim proceder, in statu nascendi, como material para o trabalho terapêutico.

Protege-se melhor o paciente de prejuízos ocasionados pela execução de um de seus impulsos, fazendo-o prometer não tomar quaisquer decisões importantes que lhe afetem a vida durante o tempo do tratamento – por exemplo, não escolher qualquer profissão ou objeto amoroso definitivo – mas adiar todos os planos desse tipo para depois de seu restabelecimento.

Toda vida, o instrumento principal para reprimir a compulsão do paciente à repetição e transformá-la num motivo para recordar reside no manejo da transferência. Tornamos a compulsão inócua, e na verdade útil, concedendo-lhe o direito de afirmar-se num campo definido. Admitimo-la à transferência como a um playground no qual se espera que nos apresente tudo no tocante a instintos patogênicos, que se acha oculto na mente do paciente.

A transferência cria, assim, uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para outra é efetuada. A nova condição assumiu todas as características da doença, mas representa uma doença artificial, que é, em todos os pontos, acessível à nossa intervenção.

A partir das reações repetitivas exibidas na transferência, somos levados ao longo dos caminhos familiares até o despertar das lembranças, que aparecem sem dificuldade, por assim dizer, após a resistência ter sido superada.

O primeiro passo para superar as resistências é dado, como sabemos, pelo fato de o analista revelar a resistência que nunca é reconhecida pelo paciente, e familiarizá-lo com ela.

O analista simplesmente se havia esquecido de que o fato de dar à resistência um nome poderia não resultar em sua cessão imediata. Deve-se dar ao paciente tempo para conhecer melhor esta resistência com a qual acabou de se familiarizar, para elaborá-la, para superá-la pela continuação, em desafio a ela, do trabalho analítico segundo a regra fundamental da analise. Só quando a resistência esta em seu auge é que pode o analista, trabalhando em comum com o paciente, descobrir os impulsos instituais reprimidos que estão alimentado a resistência; e é este tipo de experiência que convence o paciente da existência e do poder de tais impulsos.

Esta elaboração das resistências pode, na pratica, revelar-se uma tarefa árdua para o sujeito da análise e uma prova de paciência para o analista.

Todavia, trata-se da parte do trabalho que efetua as maiores mudanças no paciente e que distingue o tratamento analítico de qualquer tipo de tratamento por sugestão.

De um ponto de vista teórico, pode-se correlacioná-la com a “ab-reação” das cotas de afeto tratamento hipnótico permanecia ineficaz.

 

“Nunca são esquecidas as lições aprendidas na dor’. Provérbio Africano

 

Critica

“Interpretação”, “representação”, “atribuição de valores’ – de fato, tudo isso esta diretamente ligada ao oficio do analista.

O analista interpreta e representa um drama do qual, de inicio, só em largas pinceladas tem idéia, pois é o paciente quem vai distribuir os papéis, ao reencenar com ele toda a sua vida.

Ao interpretar e representar este papel, o analista o “encarna” mas também o torna compreensível, explicável, dá-lhe um sentido e uma significação que até então escapavam ao paciente. Em assim fazendo, esta exercendo sua principal função, seu principal papel no mundo das representações e do simbólico, em pleno campo da linguagem.

Assim, o papel mais importante do analista é o de interpretar e construir. A interpretação é tida por todos como o fundamento da terapia psicanalítica. Interpretar é, a partir do que o analisando nos comunicou, dar-lhe uma explicação de algo que ele desconhece a respeito de si mesmo, proporcionando-lhe, assim, um alargamento da compreensão de seu autoconhecimento. Interpretar é dar uma nova conexão de significado, é estabelecer novas e insuspeitas correlações, é evidenciar o sentido latente existente nas palavras e no comportamento manifestos de uma pessoa. A partir das interpretações, o analista vai reconstruindo, em seus aspectos reais e fantasmáticos partes da história infantil do individuo, como dizem Laplanche e Pontalis.

O trabalho do psicanalista como aquele que dá sentido, cria significados ao tornar consciente o inconsciente, ao preencher as lacunas da memória, ao recuperar lembranças e vivências reprimidas, dando assim acesso ao analisando a seu próprio desejo, reinstalando o dentro de sua história simbólica.

É na fala do analisando, em seu discurso, que o analista tem acesso às formações do inconsciente. Neste sentido, tudo aquilo que atrapalha e impede este discurso é lido como resistência, pois Freud logo se deu conta de que poderosas forças inconscientes se organizam no analisando, impedindo ou dificultando o desdobrar de seu discurso. A maior delas foi descrita como a transferência.

Tal visão da transferência não mais vai ser abandonada e sim amplificada, Freud oscila entre ver a transferência como obstáculo e resistência à rememoração – e o é de fato, na medida em que interrompe a rememoração verbal, quando se constitui então em resistência de transferência e, ao mesmo tempo, entendê-la como a via para a recuperação do passado do paciente.

Dizendo de outra forma, Freud vai entender que paciente repete na transferência para não lembrar, por ser impossível, lembrar. A transferência é uma forma especial de recordar.

O paciente está repetindo protótipos infantis, atualizando seus desejos inconscientes infantis nas relações atuais, especialmente com o analista, desenvolvendo então uma neurose de transferência.

Vê-se então que as falhas do discurso, as impossibilidades de mantê-lo, desde que parte dele deixa de ser comunicação verbal e se transforma em um viver e atuar na transferência, são repetições e urge interpretá-las, pois é justamente atentando para tais, repetições e tendo-as como centrais no processo terapêutico que é possível transformá-las em rememorações, simbolizá-las, integrá-las.

Ao aparecimento da transferência por parte do paciente, o analista responde com sua contra – transferência, uma série de fantasias, desejos, pensamentos desencadeados pelo paciente em seu psiquismo, que também serão importantes na elaboração da interpretação.

A importância da transferência e da contra – transferência pode levar a algumas distorções como a excessiva preocupação com a interpretação do aqui e agora. Desconsidera-se então a interpretação do passado e a elaboração de construções como racionalizações e intelectualizações que visariam a negar o que efetivamente estaria ocorrendo no “aqui e agora”, na “transferência” e a “contratransferência”. Contra estas distorções é importante lembrar que uma exaltação da relação transferencial em si, como bem lembram Laplanche – Pontalis, como é um equivoco no qual Freud nunca ocorreu.

Fica claro que quando Freud fala de construções, não se refere apenas às grandes construções sobre o passado histórico do paciente, mas maneiras de construir o próprio material da sessão, pois as construções são uma decorrência inelutável da lógica paradoxal própria do Inconsciente, a lógica da fantasia, do desejo.

 

RONALDO DE MATTOS - PSICANALISTA CLÍNICO

em 20/10/2009

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