Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Carta - Não tenho força para nada
Casei só para sair da casa dos meus pais, me pareceu à solução mais simples. Errei...

Dr. Ronaldo de Mattos estou escrevendo esse e-mail para o senhor e pedindo um conselho, porque hoje não estou com forças para nada na vida.
Até hoje acho que nunca fiz nada para ser feliz. Tudo na minha vida aconteceu por acaso. Não sou realizada profissionalmente.?

Sonho em ser alguém ou alguma coisa, mas como? O dinheiro que é curto, o lugar onde se mora. Enfim, alguns anos atrás a batalha era menos dura. Eu não batalhei e me arrependo. Casei só para sair da casa dos meus pais, me pareceu à solução mais simples.Errei.

Sai de um inferno para entrar no outro. Meu marido fez com que eu me anulasse, perdi amigos, deixei de fazer outros, vivi e vivo agressões e chantagens por parte dele. Sou casada há dois anos e tenho uma filha de sete anos, a única coisa boa que fiz. 
Mau marido é ótimo em termos materiais, mas não temos nenhum diálogo. Só nos entendemos na cama. Nem penso em me separar. Gostaria de amá-lo muito, e que ele me amasse. Mas não sei o que fazer.
Sinto uma angustia, as vezes penso em sumir e só não faço por causa da minha filha. Doutor o senhor poderia me ajudar em um conselho?

RESPOSTA


Você não sabe o que fazer. Então não faz nada. A vida continua acontecendo apesar da sua vontade. Você não fica satisfeita com os resultados. Quer sair desse círculo vicioso. Mas não sabe o que fazer. Então não faz nada. E a vida continua acontecendo apesar...
Esse carrossel você já viu, eu já vi, todos já vimos infinitas vezes. É um carrossel muito particular, aquele que embarca tantas cinderelas, você se dá conta com bastante clareza do que está acontecendo. Não se queixa exclusivamente dos outros, da sorte, do mundo mau, como elas fazem, mas se queixa também de si, dessa espécie de moleza que impede qualquer gesto mais decidido.
A vida, diz você, acontece por acaso. Sinto informá-la de que esse acaso não existe. O que existe a vontade dos outros, daqueles que, quando nós nos recusamos a fazê-lo, empurram a roda da nossa vida para a frente. O rumo não é aleatório.
Portanto, onde você diz"tudo... aconteceu por acaso", seria mais justo dizer, tudo foi feito acontecer pelos outros.
Devemos porém lembrar que entregar a decisão da nossa vida aos outros não é exatamente fraqueza, sobretudo no caso das mulheres. É demonstração de que aprenderam direitinho o que foram ensinadas.
Assim, quando você se casou para sair da casa dos seus pais, não foi só porque era "a solução mais simples", mas porque era a atitude para a qual estava mais preparada. Era a atitude que toda a sociedade aprovaria, quanto mais em se tratando de uma mulher como você, que já tinha uma filha.
Nessas circunstâncias, não havia muita razão para estudar a fundo o possível marido. Pelo contrário, o melhor era aceitá-lo logo, ignorando seus defeitos, como aceitamos o primeiro ônibus que chega quando estamos em cima da hora. Você não estava mesmo casando com uma pessoa, estava casando com uma situação.
E quanto à situação não tem, ate hoje, muita queixa. Saiu da casa dos pais como queria, o marido é bom provedor, provavelmente bom pai. Você nem pensa em se separar. Mas se queixa da falta daquilo que não procurou: um companheiro.
Este é o problema que ocorre quando deixamos outra pessoa escolher em nosso lugar. Ela escolhe por nós, mas não para nós. Pois fazer a escolha não tem condições de viver os fatos do nosso ponto de vista, e decidirá forçosamente a partir dos seus sentimentos, quando não dos seus interesses. O resultado dessa decisão tem poucas probabilidades de preencher nossas expectativas. E muitas pessoas acarretam frustração.
Você sonha "em ser alguém, alguma coisa". Nada de muito definido. Como convém aos sonhos, é apenas uma sensação, sem muitos contornos. O que você quer, provavelmente, é sentir-se alguém. 
Já lhe ocorreu que para isso não é preciso ser cientista nem estrela, mas basta assumir o controle de decidir por si? E nem é preciso dinheiro, e nem importa onde mora. A força moral não é prinvilégio dos ricos.
Você tem uma postura estranha. Olhando para trás consegue ver seus erros, sabe como deveria ter agido. É assim em relação ao seu casamento, é assim também quanto a não ter "batalhado". Mas quando chega no presente, repete exatamente o mesmo mecanismo que já a prejudicou antes. Agora mesmo é porque "a Batalha é mais dura". E parece haver sempre obstáculos intransponíveis que a impedem de começar, finalmente, a agir em seu benefício.
Escrevendo, você está, mais uma vezes, esperando que a solução venha de fora. Confia no acaso de que o seu e-mail chegue, e seja escolhido entre tantos, e eu ter uma solução prática, salvadora. É quase como se pusesse uma mensagem numa garrafa e a atirasse ao mar.
De fato, eu conheço muitas mulheres que são alguém. Que se fizeram "alguém". Uma que virou alguém fazendo bombons para fora, outra tornando-se psicóloga, e outra ainda ajudando os outros. Elas se tornaram alguém a partir do momento em que se sentiram alguém.
E sentiram-se alguém quando decidiram ser alguém. Quando decidiram, não quando sonharam.
Cada uma teve que tomar essa decisão dentro de si. E não conheço nenhuma até hoje que tenha se arrependido.
Gostaria muito de poder ajudá-la mais de perto, mas, infelizmente a distancia é considerável. Vou conversar com alguns amigos para saber se conhecem alguém nesta região que possa está atendendo você aí.
No mais, até para ser atendida, você precisa saber se quer. 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 21/10/2013

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