Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Meu marido não deixa...
Mas por que aceitam as mulheres o categórico "não pode" dos maridos? Por covardia? Por medo? Talvez em alguns casos...

Ouvi muitas vezes em ocasiões de conversa de mulheres com minha mãe, uma frase que sempre me perturbou: "Meu marido não deixa".

No trabalho, em festas, no meio de conversas ouço essa frase. E quando não se ouve essa frase não é que ela não esteja lá, e sim que hoje muitas mulheres sentem incomodadas em expressar tal frase pelo pré-conceito de outras mulheres em relação a mesma. ?

Mas há um momento em que a gente "ouve", e se espanta um momento em que finalmente entende o que esta sendo dito.

O que significa ela? Que o marido tem poder de veto. Que tem o direito de estabelecer tudo aquilo que a mulher pode ou não fazer.

Mas por que aceitam as mulheres o categórico "não pode" dos maridos? Por covardia? Por medo? Talvez em alguns casos, mas não são estes os moventes da maioria.

Não vejo medo nem ressentimento no rosto simpático da moça que me conta um "meu marido não deixa" qualquer. Vejo, pelo contrário, uma expressão de quase satisfação, de bem estar com o mundo, uma expressão, eu diria, de orgulho.

E se analisarmos de perto nossa convivência com a frase castradora veremos as fundas raízes desse orgulho.

Quando um homem diz "Não quero que você faça aquilo, está na verdade dizendo eu quero que você viva de acordo com as minhas vontades; você me pertence como um objeto pertence ao seu dono, eu sou o opressor e estou lhe oprimindo porque seu é o papel do oprimido.

Mas não é isso que ela ouve. Estas são frases muito violentas, brutais, que não fazem parte do seu universo. Este é um código que ela desconhece, e do qual apenas algumas mulheres começam a tomar conhecimento. Quando este código for incorporado à sua vivência, é provável que as frases de mando se tornem insuportáveis. Mas por enquanto o que ela ouve é muito diferente.

Ela ouve as frases permitidas, as que ela deve ouvir, aquelas frases agradáveis e gentis sob as quais durante séculos se camuflou a verdade, e que lhe foram ensinadas como certas.

Em lugar de "não quero", ela ouve este velho repertório: Eu sou seu dono, porque dono do seu amor; e como tal sou seu protetor; eu sou mais forte e sábio do que você, e como tal sei melhor do que você o que lhe convém; eu sou o chefe da família, o responsável, e como tal cabe a mim tomar as decisões.

O que ela ouve, o que lhe faz ouvir, é agradável, e se confunde de forma aparentemente natural com diálogos semelhantes ouvidos na infância, vindos do pai. Nada mais justo, portanto, do que repeti-los com um sorriso.

Assim, iludidas debaixo da permissão institucionalizada elas vivem feroz ditadura. Ter um homem que "não deixa", ou um melhor ainda, liberal, "que deixa", significa estar incluída na sociedade.

Pois a sociedade nos ensina que uma mulher só tem valor e só merece respeito quando devidamente avalizada por um homem, seja ele pai, marido, ou até mesmo irmão.

Ao contar que ele não deixa, a mulher está orgulhosamente contando seu próprio, valor. Ela é, através da proibição, uma mulher de bem, respeitadora das regras, temente a Deus (pois não é Deus aquele homem investido de todos os poderes e de todos os dons?). Ela pode se permitir arroubos infantis, pode correr o rico de fazer as "bobagens típicas do seu sexo", porque tem um homem que não a deixará ir além da conta, e que, vigilante, a trará sempre no bom caminho.

E sobretudo, ao dizer recatada "meu marido não deixa" ela esta se livrando dos anátemas da coletividade, porque em sua frase está explícito: eu não sou uma solteirona, uma mal-amada, uma jogada-fora. Eu tenho um homem que me ama e zela por mim.

Eu tenho um homem que não quer que nenhum outro homem me olhe, que não quer que nenhum outro homem me queira. Um homem que me quer só para si!

Ai estão justificados não só o sorriso, como a docilidade. Não há covardia, há falta de conhecimento. Não há fraqueza, há um engodo bem engendrado. Não há submissão, há uma grande vontade de acertar, e uma imensa confusão sobre o que seja acerto.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 22/10/2013

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