Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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O Isolamento em uma sociedade
Mas o que faz essa pessoa ter esse tipo de comportamento? Freud diz em O Mal Estar na Civilização, que é necessário reprimir as pulsões agressivas e sexuais...

Nos últimos dias estamos acompanhando um caso que deixou a sociedade brasileira chocada com a questão da frieza e principalmente o suposto envolvimento de uma criança/adolescente no crime. 

O que me chama a atenção e sobre isso quero poder detalhar é que a mídia em geral está analisando o fato a partir de um olhar materialista. Ou seja, o criança/adolescente tinha mãe, pai, avó e tia avó. Os pais trabalhavam como policiais e sendo assim classe média onde o conforto não faltava para ele.

O que não é questionado ou mesmo pensado, como era esse ambiente familiar, alguns casos nos últimos anos nos fazem pensar sobre essa questão, como as crianças que procuraram o conselho tutelar alguns anos atrás dizendo que seus pais iriam matá-los e a conselheira e a psicóloga não acreditaram.

Vindo depois saber que eles foram mortos. O caso da filha Richthofen que exaustivamente foi apresentado na mídia e gerou uma indignação na sociedade como um todo.

Mas o que faz essa pessoa ter esse tipo de comportamento? O primeiro ponto é o romper com toda a repressão própria da cultura. Para vivermos em sociedade, Freud diz em O Mal Estar na Civilização, que é necessário reprimir as pulsões agressivas e sexuais. O chamado "mal-estar" é justamente o preço que pagamos para que isso seja possível.

Quando alguém mata, algo de muito sério aconteceu em seu psiquismo. Jacques Derrida acha que no futuro qualquer crime será entendido efetivamente como uma doença, a não ser em situações de defesa.

A motivação de um crime passa a ser muito complexa a partir da inclusão dos fatores inconscientes. Freud, por exemplo, fala dos criminosos por sentimento de culpa. Ou seja, a culpa não apareceria depois do crime e sim seria seu motivador. Otto Rank foi um discípulo de Freud que se dedicou bastante à ligação entre criminologia e psicanálise, tendo interessantes trabalhos sobre a confissão.

Ele afirma, entre outras coisas, que muitos criminosos, por serem regidos por motivação inconsciente, a rigor não sabem por que exerceram o crime. De modo geral, podemos considerar que, para a psicanálise, um assassinato é sempre um ato onipotente e narcísico de intolerância diante de outro, em quem não se toleram as diferenças e divergências.

Casos de filhos que matam os pais aparentemente se tornaram mais comuns nos últimos anos, como os da Rua Cuba, de Gil Rugai, da Suzane. Por que eles se proliferam?

Não acho que isso tenha aumentado. Esses casos citados são de classe média. Mas existem dados do LACRI (Laboratório de Estudos da Criança do Instituto de Psicologia da USP), que mostram o lado oposto, da quantidade de pais que matam filhos.

É importante entender que a família é um grande caldeirão de afetos que não deve ser idealizado, é preciso reconhecer que, além do amor, há nela uma dimensão de agressões, ódios e rivalidades. E, quanto mais isso é negado, mais é prejudicial.

Toda família tem dificuldade, não podemos esquecer que na primeira família, que está na Bíblia, um irmão mata o outro, Caim mata Abel. Essa corrente de afetos, em situações ideais é elaborada, reprimida e se estabelece um superego que controla suas manifestações. Em famílias disfuncionais várias patologias se organizam.

É um laboratório de patologias e de não patologias. É um cantinho onde as pessoas vão se constituir de maneira boa ou não em função de como esta família está organizada. Poderá ser um laboratório de muita normalidade, de muita saúde. Tudo depende de como a família está estruturada. Como se estrutura?

Do ponto de vista da psicanálise, se estrutura com o recorte do Édipo, de como o filho se relaciona com os pais. A criança quando nasce tem uma relação absolutamente fundida com a mãe e a mãe com ela. Para que se rompa essa dupla narcísica é absolutamente necessária a presença de um terceiro, que poderá ser o pai, o namorado da mãe.

De certa maneira as crianças se ressentem e desencadeiam um ódio pelo pai, mas há também um enorme alívio porque ela deixa de estar presa à mãe, uma figura onipotente, poderosa. Mais recentemente, psicanalistas que se dedicam ao estudo da família ampliaram a visão do Édipo, incluindo o Édipo dos pais.

Se o Édipo dos pais não está bem resolvido, isso necessariamente se reflete na relação com os filhos. Por exemplo, quando um pai se alia à filha contra a mãe. Esta quebra de hierarquia, quando uma geração se alia com a debaixo, já provoca imensas reações no funcionamento da família como um todo, no psiquismo da criança.

Nos séculos 19 e 20 a família patriarcal se desorganizou inteiramente e houve uma feminização, uma maternalização onde toda essa questão estrutural se alterou muito. As chamadas patologias narcísicas ganharam corpo. São filhos que acham que têm apenas direitos, sem o ônus dos deveres, que tudo é deles, onde a lei paterna não está bem estabelecida. Isso é uma patologia da sociedade narcísica. É uma falha da família atual, onde a lei não se estabelece.

Para que nós nos estruturemos, é preciso a figura paterna e a materna exercendo suas funções. A função materna são os cuidados, o amor, o carinho. A figura paterna faz a introdução da lei, corta a submissão da criança à mãe e da mãe à criança e é a porta de abertura para o mundo. Bom, essas funções podem estar sendo prejudicadas, quer seja nos ricos ou nos pobres.

Uma pessoa rica pode não ter condições por conta de sua própria história, em função de suas próprias carências emocionais e seus filhos podem ter vários problemas, inclusive o da violência. Já nas classes mais miseráveis, e a nossa condição social é terrível nesse sentido, muitas vezes é essa situação que impede que os pais possam exercer as suas funções.

A situação econômica desorganiza de tal maneira uma família que impede o exercício das funções, com evidente prejuízo para as crianças. Essas crianças se constituirão, sim, com deficiências. Aquele filme Cidade de Deus é exemplar nesse sentido. 

Quase não aparecem adultos, há a formação de gangues com líderes completamente enlouquecidos, onipotentes, narcisistas e que terminam assassinados. Isso é uma questão muito séria do ponto de vista político e social. A miséria de certa maneira faz com que, por mais que se queira ser um bom pai ou uma boa mãe, não se consiga. Mesmo querendo.

Tanto quanto os pais. É preciso ver o que os pais também fazem com os filhos, de que maneira essa relação se estabelece, se organiza.

A situação da família é importante. Se você vir só à patologia da Suzane, ignora a patologia da família. Mas é preciso entender o contexto, entender a situação. O que aconteceu nós não vamos saber, o que estamos fazendo aqui é estabelecer hipóteses.

Não se trata de culpar a família, mas entender que nela interferem fortes determinismos inconscientes que são necessários conhecer. O importante é mostrar para as pessoas uma visão mais ampla da questão. A família não é um mostruário de virtudes.

Mas como as coisas chegam nesse ponto? Como a família pode virar um terreno fértil de psicoses? Justamente porque vivemos um momento cultural em que a família patriarcal se desfez. Recentemente ficaram ainda mais complicados, com as famílias refeitas, com dois, três casamentos, com filhos da primeira, da segunda e da terceira mulher.

A família está passando por momentos críticos, de muitas mudanças. Todas essas questões da função materna e paterna são complicadas hoje em dia.

O matricídio e o patricídio são os crimes máximos, os mais punidos, exatamente porque são aqueles desejados e realizados no inconsciente, e depois reprimidos, esquecidos e elaborados. É essa a explicação que o Freud dá para a tragédia do Édipo: puxa, ele matou o pai e ficou com a mãe, mas no inconsciente todas as pessoas pensaram e desejaram isso.

É uma identificação e um grande alívio: ainda bem que foi ele e não eu. Porque o Édipo realizou algo que no fundo está em todos nós. Mas, lembre-se que, como o próprio Freud disse o fato de todo mundo ter o complexo de Édipo não justifica o crime. Isso é uma coisa estrutural e em famílias medianamente estruturadas não acontece.

Toda família passa por uma grande crise com a adolescência dos filhos. Do lado do filho, há uma recrudescência do complexo de Édipo, agravado porque agora o adolescente tem condições físicas de matar o pai para transar com a mãe. Isto gera uma imensa angústia.

Todo o afastamento, as brigas, a ojeriza aos pais, muitas vezes, são uma forma de tentar controlar o medo do erotismo revivido. Os filhos têm de fazer o luto da infância, não estão mais protegidos. Os pais ficam com ciúme da sexualidade dos filhos adolescentes, que são o primeiro sinal de velhice.

Eles precisam fazer um luto do filho pequeno e da própria juventude. É uma crise sim, mas, se houver uma relação saudável, ela progride, vai para frente. Se já houver uma situação doentia, no entanto, alcança níveis dramáticos. É importante que os pais consigam fazer com que a criança se volte para o mundo e vá expressar sua sexualidade lá fora.

No caso da Suzane, a saída da família poderia ser uma forma de tentar se afastar, muito embora no caso específico a família Cravinhos também deva ter algo muito grave.

É preciso confiar que seu filho vai para o mundo, vai enfrentar maconha, cocaína, crack e fazer escolhas saudáveis. Você não pode evitar que entre em contato com isso, tem que apostar que ele vai passar por todas essas experiências e sair o menos danificado possível. Porque querer manter o filho numa redoma dentro de casa é manter uma relação de dominação, submissão, infantilização e castração absolutamente patológicas. Os pais não podem prender os filhos e têm de aguentar a angústia.

O Freud disse e hoje acontece muito mais, que os pais revivem o próprio narcisismo nos filhos. É aquela coisa: "Meu filho vai ter tudo porque eu queria que tivessem feito isso para mim." Claro você sempre tem esperança de que seus filhos possam ser melhores do que você, mas é importante que isso não alimente a onipotência. Nós nascemos onipotentes, e a realidade e a lei nos enquadram.

Na medida em que a lei paterna ficou diluída em que o poder se horizontalizou, isso é um equívoco lamentável. O freio maternal não funcionou, pois, justamente como vimos, se os freios maternais e paternais tivessem ocorrido no seu devido tempo, eles jamais teriam realizado os crimes.

Os Cravinhos não teve. Em todos os três, Suzane, Daniel e Christian podem pressupor falhas estruturais na personalidade, no psiquismo, do controle da agressividade, do ódio. Em relação aos estudos de família, além do Édipo ampliado, existe o que alguns autores mais recentes têm falado o chamado transgeracional, a história da família.

Toda família tem as suas vergonhas, a sua tia louca, o fulano que roubou não sei quem. Toda família tem traumas e vergonhas na sua própria história e essas vergonhas e traumas passam de uma geração para outra, contadas, faladas. Mas tem outra história, não verbalizada, que passa transgeracionalmente pelo inconsciente como um buraco, que vai produzindo sintomas. É muito importante entender a história da família para ver como ela foi condicionando o que acontece com a geração atual.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 23/10/2013

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