Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Dois estilos, um casamento
Ler. É disso que ele gosta mais. Ler em silêncio, bem instalado numa poltrona, com uma leve música... Conversar. É disso que ela mais gosta. Conversar de tudo, contar casos, comentar o dia...

Ler. É disso que ele gosta mais. Ler em silêncio, bem instalado numa poltrona, com uma leve música ao fundo. Conversar. É disso que ela mais gosta. Conversar de tudo, contar casos, comentar o dia, sentada pertinho dele no sofá, acarinhando, lambiscando beijos e salgadinhos. 

Ele é introvertido, desligado da realidade enquanto vagueia num mundo interior, desarrumado não por preguiça mas por pura distração.

Ela é extrovertida, com os pés bem na terra, nas novidades da terra, nos prazeres da terra, e na ordem em que a terra tem que ser mantida para não virar um caos.

Este é um tipo de diferença que não deveria pegar ninguém desprevenido. É aquela que se conhece antes do casamento, e que, em última analise, nos leva a casar. Mas há diferenças, básicas, que só aparecem depois do casamento.

Ela é apressada, dinâmica, de manhã faz tudo correndo, e correndo espreme o tubo de pasta de dentes pelo meio, dando um bom apertão, daqueles que deixam o tubo vazando e tornam impossível colocar bem a tampa de volta.

Ele é cuidadoso, metódico. De manhã levanta mais cedo para fazer a tempo e hora, assim como espremer a pasta de dentes, que no seu entender deve ser feito de baixo para cima, regular e progressivamente, enrolando-se a parte de baixo do tubo à medida que esvazia, e recolocando a tampa de modo a deixar tudo bem limpinho.

Então todas as manhãs ele se irrita porque encontra o tubo torto, amassado, lambão, ela se irrita porque não vê necessidade de tantos cuidados com o tubo de pasta de dentes. E a simples higiene bucal se transforma em discórdia enquanto impropérios são lançados com sabor de hortelã.

Ao casar, as pessoas dispõem-se então a partilhar aquilo que na verdade desconhecem. É um admirável atestado de confiança (ou uma prova de inconsciência) cujos frutos se colhem logo no inicio da safra conjugal.

Pois é nos primeiros dias que (por maiores que tenham sido as intimidades amorosas anteriores) começa a se estabelecer a verdadeira intimidade, aquela da pasta de dentes, a do ronco, a do espirro, a dos pequenos cacoetes, E se descobrem diferenças que, se mal resolvidas, podem transformar a vida em comum, em comum desgraça.

Cada pessoa tem uma rotina de vida. Não é arbitrária, não é leviana. É o resultado de anos de lutas e adaptação aos ensinamentos, às pressões, às necessidades.

Podemos mesmo dizer que a rotina de vida de cada um é uma demonstração da criatividade com que o ser humano sobrevive à tirania doméstica, ajeitando-se no cotidiano.

Exatamente por isso, por ser a soma de tantos elementos diferentes, é impossível encontrarmos duas rotinas idênticas.

E mais impossível ainda é encontrarmos duas rotinas quase idênticas casadas entre si. Em termos de pasta de dentes, por exemplo, é raro, raríssimo casarem dois espremedores por baixo ou dois apertadores pelo meio.

Querer, portanto, que a rotina de alguém que foi educado em ambiente e modo diferente do nosso se sobreponha com exatidão aquela rotina que consideramos parte essencial de nós mesmos é uma forma de delírio romântico que nada justifica.

Gêmeas as almas, ainda assim serão diferentes os modos de viver. Nem poderá um mudar completamente seus jeitos, em favor do outro. A solução terá que estar sempre no cruzamento dos dois modos, dando origem a um terceiro: o modo conjunto.

em 23/10/2013

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