Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Cuidado com o olho gordo...
Lidar com a felicidade é, em princípio, bem mais fácil do que lidar com o sofrimento. Mas a verdade é que, até mesmo por certa falta de costume, acabamos às vezes metendo os pés pelas mãos...

Se você estivesse agora muito triste, o mais provável é que quisesse fugir dessa tristeza bem depressa, antes do aprofundar-se da ferida. Talvez telefonasse para alguma amiga e tentasse desencavar um programa, para a noite, coisa bem alegre, barulhenta, movimentada, que não a deixasse pensar na sua tristeza. 

Ou talvez telefonasse para um amigo, conhecido, ex-namorado, enfim, alguém do sexo oposto, garantindo logo uma companhia masculina, ainda que não decididamente romântica.

Fosse qual fosse a opção, você ia tentar evitar a fossa, a solidão em casa, o remover da mágoa. Pois não é assim que todo mundo faz?

É assim, de fato, que todo mundo o faz. O que não significa que é assim que deva ser feito pois, assim como a felicidade, também a tristeza é uma etapa da vida, um momento.

E, embora seja reflexo natural querer esquivar-se da tristeza e manter-se na felicidade, a verdade é que dificilmente isso pode ser obtido à custa de artifícios. Na maioria dos casos, os artifícios apenas disfarçam a realidade, recalcando os sentimentos para um segundo plano em que nos seja permitido negá-los, ainda que temporariamente.

Lidar com a felicidade é, em princípio, bem mais fácil do que lidar com o sofrimento. Mas a verdade é que, até mesmo por certa falta de costume, quando ela aparece radiosa, acabamos às vezes metendo os pés pelas mãos.

Basicamente, queremos conversar a felicidade. É o tesouro mais precioso, o que, por trás de tudo, todo mundo procura. Quando nos sentimos felizes, vemos em tudo uma ameaça à nossa felicidade. É a hora de temer o olho grande. O que vem a ser ele, afinal?

É um olho grande mesmo, imenso e persecutório, que, tendo vislumbrado ao longe nossa alegria, abate-se sobre ele carregado de inveja, pronto a apagar qualquer sorriso. A todos e a ninguém. Acreditamos que existe, tememos seu efeito, recomendamos aos outros que tenham cuidado, fechamos as portas da nossa vida, mas saber de onde vem não sabemos.

Vem em grande parte, de nós mesmos, configuração simbólica dos nossos medos. Por trás do "olho" está nosso inevitável sentimento de culpa; não somos perfeitos, erramos então não merecemos esta felicidade e, mais cedo ou mais tarde, ela nos será tomada em pagamento de dívidas não resgatadas. Ansiosos, tentamos protegê-la.

No entanto, protegendo demais a felicidade, estamos decretando sua sentença de morte. Estamos ratificando uma fragilidade que é nossa pois colocar fora de nós a responsabilidade pela duração da nossa felicidade equivale a dizer que nós somos incapazes de conservá-la e até mesmo de vivê-la plenamente.

Sabemos que, como a tristeza, a felicidade não pode ser eterna. Mas nos recusamos a aceitar essa verdade. Negamos à felicidade seu direito de existir pelo que é, uma etapa da vida.

E apegando-nos a ela em ânsia negando sua essência, perdemos muitas vezes a naturalidade necessária para usufruir de sua alegria e quem sabe prolongar realmente sua duração.

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 23/10/2013

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