Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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A Imagem projetada de um retrato
Nem todas as imagens, porém, são fabricadas conscientemente. E é justamente contra aquela pequena imagem que vive conosco, que projetamos sem querer, ou quase sem querer...

Vi uma vez uma piada em uma revista, desenho de página inteira. Na parede de um salão de alto padrão, acima de um sofá de couro branco, um enorme quadro reproduz bela as curvas de uma mulher estendida nua sobre almofadas. ?

Abaixo, sentados no sofá, um velhinho distinto e uma senhora de idade, um pouco obesa, cujo rosto lembra as feições jovens do retrato.

Eles conversam:

Ele - Que maravilha de retrato!

Ela - Certamente. (suspiro). Mas tem sido difícil viver à sua altura.

Toda vez que penso em imagem lembro da piada. Porque assim vivem os que, acima de si, têm sua imagem, um "retrato" projetado, geralmente melhor que o original, que exige um interminável esforço para não desmerecê-lo, para não deixar transparecer, além das brilhantes cores fictícias, os tons mais sólidos da realidade, infelizmente, porém, viver à altura de uma imagem é um dos grandes apelos do nosso século, e, assim, imagens são fabricadas e consumidas em alta escala, num processo constante de renovação.

Tenho observado como algumas pessoas alimentam sua imagem, mas uma pessoa conhecida minha me fascina em particular.

Sua dedicação é absoluta, todos os seus gestos, toda a sua atuação encaixam-se rigorosamente dentro de uma imagem de harmonia e perfeição por ela criada.

Acredito mesmo que tenha já há algum tempo perdido as fronteiras entre o que nela própria é real e o que é "fabricado", porque o vejo mentir com tanta naturalidade que posso até considerá-lo sincero.

Nem todas as imagens, porém, são fabricadas conscientemente. E é justamente contra aquela pequena imagem que vive conosco, que projetamos sem querer, ou quase sem querer, que podemos nos precaver.

Muitas vezes a imagem nos é impingida desde cedo, sem que possamos nos dar conta. Os pais, a mãe, começam pequenas campanhas inconscientes do tipo: "Ah! essa menina tem um talento para música!" E logo vêm os professores de piano, aulas e mais aulas, estímulos constantes.

Bastará a menina ter um pouco de talento para se ver envolvida. Acreditará que nasceu para concertista, se comportará de acordo com o papel, e estará, sem perceber, vivendo por trás de uma imagem.

Quantas percebem a realidade e se rebelam? Algumas. Mas muitos passam a vida toda perseguindo uma carreira que, afinal, não era a sua.

Conheço um rapaz que foi desde o inicio "destinado" pela família para a engenharia. E precisou cursar dois anos de universidade, com algumas reprovações, para chegar à conclusão de que queria coisas diametralmente opostas. Hoje é ator de cinema e mergulhador profissional, homem do mar e da liberdade. Mas foi um verdadeiro escândalo familiar quando ele decidiu despir a imagem bem arrumada de promissor futuro engenheiro.

Lutamos, além disso, com a imagem que os outros têm de nós, e que geralmente, é diferente da que temos de nós mesmos.

Até fisicamente nós nos "vemos" de um jeito, enquanto os outros nos vêem de outro. E não entendemos às vezes coisas que dizem de nós, a respeito do nosso físico, e que de tão distantes nos parecem dirigidas a outras pessoas.

A maturidade tende a nos conduzir para um maior entendimento entre aquilo que projetamos para os outros e aquilo que somos para nós mesmos. Mas na primeira juventude, quando ainda estamos muito indecisos a nosso próprio respeito, a confusão pode ser enorme.

Eu mesmo, quando era garoto, ainda muito distante de assuntos de namoradas e sexo, não entendia um certo interesse que despertava, e até me irritava com isso. Só anos mais tarde percebi que meu corpo naquela época estava bem adiante da minha cabeça, e que ele criava a imagem de um rapaz muito mais evoluído do que eu realmente era.

A imagem que os outros têm de nós, serve para a nossa identificação. Porque, uma vez estabelecida a imagem, os outros a grudam em nós feito um rótulo e, se possível, nunca mais a modificam.

Este sistema, que torna o ato coletivo de viver um pouco mais fácil, não facilita em nada o nosso viverzinho individual. Mesmo porque a sociedade espera que, uma vez rotulados, nos atenhamos ao rótulo, evitando sucessivos trabalhos.

A formação de uma imagem baseia-se na credibilidade. Ou seja, na possibilidade que a imagem criada tem de ser aceita, e no desejo do público de aceitar a imagem.

É exatamente nosso desejo de aceitar rótulos que torna a indústria da imagem tão florescente. Queremos acreditar que o casal de atores que se ama loucamente nas novelas é igualmente apaixonado na vida real.

Gostamos de ver confirmada a teoria de que, quanto mais louca e gostosa for a mulher, tanto mais burra. Precisamos confundir ficção com a realidade.

E isto porque os tipos da ficção obedecem a estereótipos já mais do que testados, que, se verdadeiros, tornariam nossa vida mais fácil. Ficaria mais fácil saber de saída que a gostosona é burra, sem ter que prestar maior atenção nela, pesquisar sua alma.

Ficaria mais fácil saber que a situação será salva por heróis tipo John Wayne, sem que tenhamos que entrar em ansiedade. Ficaria mais fácil nos guiamos por rótulos do que ter que, a cada instante e a cada encontro, botar nossa sensibilidade para trabalhar.

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 23/10/2013

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