Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Um amor perecível
Os vates que me perdoem, mas uma coisa é a métrica suave dos sonetos, e outra a batida da realidade...

Eu posso me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

Soneto de Fidelidade

(Vinícius de Moraes)

 

Dito por Vinícius, e já dito antes por Goethe, fica bonito, fica romântico. Um amor ardente, vivido como se eterno. Um amor perecível que não se entrega à consciência do fim. Da muita literatura, dá poema, dá samba. Mas não dá felicidade

Os vates que me perdoem, mas uma coisa é a métrica suave dos sonetos, e outra a batida da realidade. Debaixo das rimas, espanando douradas poeiras românticas, descobrimos que o amor é mais bonito quando o aceitamos pelo que é.

Amor sem prazo marcado, sem relógio de ponto, que fica quando quer e enquanto quer que se permita ser intenso e passageiro como um verão de cigarra, sem que se queira metê-lo na prisão de eternidade. Amor que não sendo medido pelo calendário, se mede pelo prazer.

É olhando mais de perto esse amor aliviado do peso do infinito, esse amor/realidade, que percebemos os riscos do seu oposto, aquele que vem e que nos consideramos na obrigação de conservar “até que a morte no separe”.

1.     Dispostos a fazer daquele amor (ou de qualquer outro que tivesse entrado primeiro na cena) o amor eterno dos nossos devaneios românticos, passamos a idealizá-lo, a cobri-lo de uma majestade, a revesti-lo de um valor e sabor que na verdade não tem, mas que o tornaria capaz de vencer tempo e desgaste.

2.      No esforço de idealização, ignoramos a realidade, passando a enxergar apenas aquilo que nos interessa que se encaixa no modelo da alma gêmea total. Aos poucos, aceitamos como verdadeira a falsa majestade, e ainda nos convencemos de que o melhor está por baixo.

3.     Transformamos o amor num campeonato de resistência, valorizando-o mais por sua duração do que por seu conteúdo. É o perigoso “salvar meu amor acima de tudo”, quando nos agarramos a uma relação que já não nos convém, que se transformou numa teimosa, da qual nos recusamos a abrir mão “acima de tudo”, acima até da nossa felicidade.

4.     É um risco mesmo, do verbo riscar, risco que traçamos na nossa contabilidade afetiva, dando por encerrado o balanço e fechando a porta a qualquer possibilidade de um novo (e, por que não, melhor) amor. Se o eterno chegou, não haverá mais espaço para qualquer outro.

Perigoso, então, esse amor eterno tão cantado. E de pouca serventia. Raro também, ao que tudo indica. Então por que teimamos em encontrá-lo, e fazemos questão de confundir com ele qualquer outro amor menos vital que se apresente? Por que nos é tão difícil aceitar que o amor simplesmente acabe e se vá, como todas as outras emoções?

Entenderíamos melhor, talvez, se soubéssemos ao certo o que é amor. 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 01/11/2013

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