Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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“Cala a boca, menino!”
“Honrarás pai e mãe” esta e a frase que mais se repete na boca dos pais para os filhos, está na bíblia, é um dos dez mandamentos da Lei de Deus...

“Honrarás pai e mãe” esta e a frase que mais se repete na boca dos pais para os filhos, está na bíblia, é um dos dez mandamentos da Lei de Deus. 

Honrar significa: estimar, respeitar, acatar, venerar. Mas não há, na Lei de Deus, nenhum mandamento exigindo dos pais que protejam, respeite, venerem seus filhos.

Podemos então deduzir que é natural aos pais amarem e protegerem seus filhos, enquanto os filhos só respeitarão os pais se forem obrigados por mandamento divino? De forma alguma.

A Associação Humanitária Americana assinala o aparecimento anual, nos Estados Unidos, de 10.000 crianças vítimas de sérios espancamentos, pelos quais os pais, isoladamente ou em conjunto, são responsáveis diretos em 75 por cento dos casos.

Dessas crianças, 55% estão abaixo dos 4 anos. Por outro lado, naquele mesmo país, os velhos, quando abandonados pelos filhos, têm forte amparo governamental.

Podemos, a partir daí, deduzir que é necessário à sociedade o respeito aos mais velhos, produtores e administradores das leis e do dinheiro? Podemos. Mas o crescente aumento do poder jovem e o decréscimo de autoridade dos mais velhos demonstram uma alteração de base na relação pais-filhos.

Então, quem deve o que a quem?

“Cala a boca, menino!”, todos nós crescemos com essa frase nos ouvidos. Menino deve silêncio aos pais. Fala quando lhe é permitido falar. “Não responda assim pra sua mãe!” Menino deve ouvir sem responder, a não ser quando a resposta for gentil e de agrado do adulto. Menino deve agrado. “Não interrompa conversa de adulto!” Menino não deve interromper, deve saber qual é o seu lugar. E qual é o lugar de menino? Todos e nenhum, afinal, “onde já se viu criança mais metida?”

Dever dos pais seria em principio dar condições de sobrevivência, tendo em vista que a sobrevivência tem limites mínimos, mas não tem limites máximos, que se vive de comida, mas também de educação, de formação e, sobretudo de amor, de muito amor.

- Vou fazer como? O pai desapareceu e não me dá um tostão. Chega ao fim do mês e de onde vou tirar o dinheiro? Preciso trabalhar, e não tenho mãe ou avó ou tia, para deixar as crianças.

Deixo mesmo com a empregada o dia inteiro. E quando chego do trabalho elas já estão dormindo, nem dá para ver. Sobra algum tempo de manhã, mas foi o horário em que consegui vagas no colégio, e lá se vão eles.

Teria os fins de semana para a gente ficar junto, mas aí também tem meus dias de plantão. Enfim, faço o que posso.

É mais fácil para um pai maltratar o filho, sobretudo enquanto criança, do que vice-versa. O filho é indefeso, e não reage. É dependente, e não foge. É inocente, e desconhece a lei. Uma criança não vai à policia para dar queixa da própria mãe que a espancou, e quando vão não acreditam nela.( http://gritodanacao.wordpress.com/2008/09/08/delegado-diz-que-irmaos-mortos-pediram-socorro-ao-conselho-tutelar-mas-nao-foram-atendidos/). Essa é uma matéria que prova a questão que estou mencionando.

É de pequenino que se torce o pepino. Porque é de pequenino que ele se deixa torcer. Com a desculpa da educação, descarregam-se na criança os ódios reprimidos, as frustrações, a tensão toda acumulada.

Uma boa surra nunca fez mal a ninguém, dizem os adultos, esquecidos das surras que levaram, mas nunca ninguém ouviu uma criança dizer essa frase.

E, precedidos pelo clássico intróito Agora você vai ser o que é bom, muitos pais mostram aos filhos apenas sua ferocidade.

Honrarás pai e mãe, diz a Bíblia.

Uma moça moradora de rua me disse a um tempo atrás, meu pai me batia de cabo de vassoura, de cinto, do que tivesse na mão. Era só beber. Me trancava em casa, não queria nem que fosse ao colégio para não encontrar os colegas.

Uma vez me quebrou o nariz com um tapa. Mas, que jeito? Agora está velho, doente. Arranjei vaga para ele no Hospital, ficou internado, Levo dinheiro para ele, levo cigarro, e ainda pago o aluguel de um barraco com o dinheiro que arrumo com alguns programas e sendo avião (pequeno traficante para o próprio sustento na droga). Não quero que ele vá lá, beber, fazer arruaça, atormentar minha vida.

Quem deve o que a quem?

A sociedade, a bem da verdade, sempre se interessou mais em estimular a dívida dos filhos. Pois o pai representa a Ordem, e um filho obediente ao pai será mais facilmente um homem observante das leis.

E os próprios pais semeiam desde cedo os conceitos de divida filial. Você vai ser o bastão da minha velhice, garantindo seu futuro.

Mas a psicanálise de Freud veio alterar muito da ordem estabelecida. Hoje se pede que se dê aos filhos bem mais do que o simples sustento material, ao mesmo tempo em que a consciência do sentimento de culpa torna possível vivenciar abertamente o ressentimento contra os pais.

Tenta-se na abertura da relação pais-filhos, uma distribuição mais equitativa dos deveres.

É possível, porém, que o empecilho maior esteja na própria existência de contabilidade. Suprimindo a palavra dever, suprimindo o conceito de divida, tudo teria que ser reelaborado. Talvez tivéssemos, então, como eixo, apenas a palavra afeto.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 08/11/2013

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