Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Do jeito que está não dá...
Eu não gosto de rupturas, duvido que alguém goste. Está aí uma coisa que nos deixa com um nó na garganta. Ou seja, quebra, separação, corte...

Eu não gosto de rupturas, duvido que alguém goste. Está aí uma coisa que nos deixa com um nó na garganta. Ou seja, quebra, separação, corte. E quem gosta disso?

Mas muitas vezes a ruptura de uma situação é necessária, até mesmo para que possa haver depois novas ligações, e mais tarde novas rupturas, na dinâmica de renovação da vida.

O melhor, portanto, é encará-la como uma coisa positiva e procurar maneiras de enfrentá-la sem maiores sangramentos.

Olhando para trás, e analisando as minhas rupturas e as rupturas alheias que acompanhei, percebo que, a maneira de sair sem trauma de uma situação que já não nos convém, podem ser agrupadas em três categorias.

É claro, existe sempre o sistema radical, aquele mais óbvio, em que, ignorando dilacerações, a gente simplesmente se despede e sai em frente de uma hora para outra, despedaçado, e despedaçando.

Mas é justamente essa chacina que quero evitar. E é aí que podemos recorrer às três categorias.

Um dia, nós chegamos à conclusão de que não suportamos mais o próprio emprego. O chefe não é tão simpático quanto era, ou o trabalho é demais, ou o dinheiro é de menos, ou o clima geral é pesado.

Ou tudo isso ao mesmo tempo. Não se demite. Pensa nisso o dia inteiro. Aí lembra que os colegas são simpáticos, que já se conhece o serviço, e que afinal já são tantos anos de convivência. Pensa em ter que recomeçar tudo de novo em outro lugar. E vai ficando, irritada. Mas vai ficando.

Realmente, largar tudo de repente e ficar de mãos abanando é muito duro. Mas quem disse que é preciso ficar de mãos abanando? Ao largar um pássaro voando, a gente já pode ter dois, ou um, bem seguros. É onde entra a substituição em campo.

Ou seja, prepara-se a ruptura com antecedência, marcando a hora da despedida somente quando já se tem uma destinação certa.

A vantagem deste sistema é que vem diretamente ao encontro de uma teoria básica de Freud, segundo a qual as pessoas não abrem mão das coisas, não jogam nada fora, mas sim, efetuam substituições, trocam uma coisa pela outra.

De fato, um dos fatores que mais nos assusta na iminência de uma ruptura é o interregno que ela abre o espaço vazio que vemos à nossa frente. Se for de emprego que se trata, imaginamos a busca de outro, as decepções, o medo até de não encontrar nada melhor do que aquilo que deixamos, enfim, o fantasma do desemprego.

Se for separação de um homem, as mulheres prevêem com ansiedade um período de solidão e procura estado parecido com o abandono, embora elas mesmas tenham provocado.

Em qualquer caso, tememos o “buraco negro” que fica em nós lá onde alguma coisa é retirada. Pelo menos, até a reposição.

Então, por que não repor antes mesmo de tirar?

Temos, são bem verdade, escrúpulos éticos em relação a isso. Não parece muito elegante nem muito sincero dar os primeiros pontos num novo romance enquanto ainda não cortamos a linha que nos prende ao antigo.

E, no caso de trabalho, a idéia de que o nosso patrão saiba que estamos tratando outro emprego, sem tê-lo avisado, nos parece no mínimo inquietante. Farejamos no ar a palavra traição. E como traidores nos sentimos culpados.

Mas não se trata de traição. Ou, pelo menos, não necessariamente. A gente pode ao mesmo tempo em que arruma a própria partida, ir preparando as pessoas envolvidas.

Há todo um crescendo, em que podemos passar gradativamente de sugestões veladas, para afirmações mais claras, dando pistas e deixas, de modo a fazer com que o adeus final seja apenas arremate previsível de um longo processo de desprendimento.

O bom da substituição em campo é que se deglute a perda ao mesmo tempo em que se abocanha uma proposta futura, estimulante. Se hesitar quanto à validade de continuar um trabalho, e me parece à proposta de outro cheio de desafio e possibilidade, lá se vai a minha hesitação.

Eu sei imediatamente a chatice do primeiro, por que a nova proposta atua como um padrão, uma medida que torna possível a avaliação.

Então, muitas vezes, em vez de esperar que as propostas salvadoras venham a nós (e nem sempre vem quando a gente precisa), podemos partir à sua procura antes que seja um imperativo premente, e fazer da ruptura de uma situação desagradável, o início de uma nova situação entusiasmante.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 14/11/2013

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