Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Separação dos casais, sexo e a mistura espiritual
Mas afirma um vasto coro que o sexo morre no casamento, assassinado pela rotina, pelos horários sempre repetidos, pelo cansaço, pelo “já tudo tão conhecido”.

Queremos casar porque queremos ter sexo, regular e livremente. Muitos casam até mesmo sem nunca ter experimentado sexo antes (o que, convenhamos, é o mínimo uma temeridade).

E queremos casar para completar nosso eu incompleto, queremos o duplo e o oposto, queremos a totalidade do corpo e do espírito.

É ai que a coisa complica. Porque é aí, nessa área vital, que estão os motivos do sucesso do casamento, e os do seu fracasso.

Mas afirma um vasto coro que o sexo morre no casamento, assassinado pela rotina, pelos horários sempre repetidos, pelo cansaço, pelo “já tudo tão conhecido”.

E morto o sexo, vai com ele para a cova o casamento. É o velho esquema dele com a coleguinha do escritório, e dela num moral de três às quatro, enquanto as crianças estão no colégio.

Mas será isso mesmo? Será inevitavelmente isso mesmo?

Os americanos, certos de que era isso mesmo, tentaram, na década dos anos 60, introduzirem algum balanço no sexo nupcial. Estiveram naquela época muito em voga os casamentos abertos, em que cada um dormia com quem queria, as férias conjugais, em que cada elemento do casal saía em férias por sua conta, e por sua conta se deitava sexualmente, é os grupos de swingers, praticantes da troca matrimonial.

O sexo, puro e simples, ficou mais agitadinho, como era de se esperar. Mas a situação do casamento não melhorou. Os casamentos abertos, quanto mais se abriam mais fracassam.

As férias conjugais eram apenas a oficialização do motel. E as atividades swingers acabaram ficando tão monótonas e restritivas quanto o tipo de casamento que as havia originado.

O problema então não está na propalada monotonia sexual do matrimônio (desde, é claro, que a relação seja inicialmente satisfatória para ambos).

Está no espírito?

O espírito entra na questão matrimônio cheio de expectativa, conforme já vimos. Não quer uma coisinha ou outra. Quer a plenitude. Quer que o outro lhe seja igual, para com ele se identificar. Mas quer que lhe seja oposto, para nele se completar.

Quer se integrar, sem perder a individualidade. Quer mergulhar de cabeça, e ficar de fôlego suspenso pela eternidade. O espírito é ambicioso.

Mas estamos a altura do nosso espírito?

Nem sempre. Frequentemente reclamamos do outro se nos é igual, porque vemos nele nossos defeitos. Brigamos com o outro se nos é diferente, porque suas opiniões não combinam com as nossas.

Tentamos absorver o outro no processo de integração é, lutando pela nossa individualidade, fazemos tudo para abafar a dele. E quantas, quantas vezes relutamos em jogar a cabeça antes do corpo, achando que a eternidade é uma utopia.

É então aí que está o problema? Entre as nossas expectativas grandiosas, e as nossas capacidades limitadas? Sim, em parte pelo menos, temos aí um problema. Queremos aquilo que imaginamos dever querer.

Queremos, sem vincular este querer à realidade de que dispomos. E quando, confrontados com a realidade do dia a dia, não podemos mais negá-la, nos sentimos logrados, frustrados, privados de um maravilhoso sonho matrimonial.

Mas o meu sentimento é que não há nada errado com a base do casamento em si. Nada errado com o fato de duas pessoas que se gostam resolverem morar juntas e ter filhos e criá-los.

O que está errado é encarar o casamento como um fato mágico, desvinculando da vida. O erro, se erro se pode chamar, deste momento da nossa sociedade, não está no casamento, está na vida.

As pessoas não estão satisfeitas com o casamento, e os índices de divórcio são altos. Sim, mas no casamento as pessoas podem divorciar-se.

As pessoas, com freqüência até maior, também não estão satisfeitas com seu esquema de trabalho. Mas quantos podem divorciar-se dele?

As pessoas, numerosas pessoas, não estão satisfeitas com a vida nas grandes cidades. Mas quantos podem abandoná-las? As pessoas não estão satisfeitas com o clima de perigo e ameaça que a vida adensa a cada dia mais sobre nossa cabeça.

Mas como livra-se dele? As pessoas não estão satisfeitas com os engarrafamentos, o consumismo, a poluição, o custo de vida, a batalha constante e sem vitórias, a falta de perspectiva. Mas para isso não há divórcio.

Irritada, cansadas, desgastadas, desiludidas, as pessoas descarregam seu mal-estar onde e como podem. Podem gritar com o patrão? Pode botar de castigo o motorista do carro da frente que pára sem fazer sinal?

Não. Reprimem, para não perder o emprego, para não dar escândalo, para livrar a cara. Contêm a tensão durante o dia todo, até chegar em casa. E em casa as pressões se relaxam, e a tensão explode de um para o outro.

O que queremos, o que queremos todos aqueles que se divorciam, não é sempre e exatamente livrar-se de um homem ou de uma mulher, não é recuperar a solteirice. Querem livrar-se da acidez da vida, da sufocação, querem recuperar a alegria, o prazer das coisas. E tentam fazê-lo através de outra pessoa, outra casa, outros filhos.

Divórcios continuariam existindo, mesmo que a vida fosse melhor. Porque as pessoas mudam, paixões surgem inesperadas, e o fluxo da vida nem sempre nos leva para onde desejamos.

Mas que parece cristalinamente evidente que os índices seriam menores na medida em que tivéssemos mais tempo para dedicar a nós mesmos e à nossa família, para fazer aquilo de que realmente gostamos, para ver o mundo ao redor com mais benevolência.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 14/11/2013

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