Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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A Religião e seus destinos
A paráfrase com o título freudiano sobre os destinos das pulsões não é acidental - mas tem um percurso que passa em Zurique, pelo gabinete do pastor e psicanalista Pfister.

A paráfrase com o título freudiano sobre os destinos das pulsões não é acidental - mas tem um percurso que passa em Zurique, pelo gabinete do pastor e psicanalista Pfister.

Em 1914, Pfister publica O método psicanalítico, prefaciado por Freud - e lá defende um conceito de pulsão que difere de Freud.

Para Pfister, a pulsão não é, como para Freud, uma energia sexual na sua origem - é uma energia que se manifesta em várias formas - sexualidade é uma delas, mas espiritualidade também é uma forma de manifestação desta energia vital.

Para Pfister, pulsão é um coletivo - sob o qual se expressam desde a força da sexualidade, com a busca do prazer sensorial, a descarga motora, passando pela agressividade, com sua pulsão de morder, de triturar, - estas seriam a forma "toupeira"  de expressão da pulsão.

Mas, na outra ponta, a pulsão tem a forma "águia", não como sublimação da pulsão originária, mas como expressão direta deste feixe pulsional - que nas alturas congrega expressões da busca da liberdade, da estética, da cultura, e da religião.

A religião, para Pfister, é uma pulsão - e a partir desta ótica gostaria de tecer alguns pensamentos. Como pulsão, pode ter vários destinos:

- pode ser reprimida - simplesmente desalojada da superfície da consciência, e alojar-se em profundidades do inconsciente. Pode ficar ali, bem segura pelos núcleos já abrigados no inconsciente. Mas, também pode haver o retorno do reprimido. E, sabemos por Freud que este retorno pode assumir formas bizarras:

-     retornar na forma histérica - como em alguns cultos que sobrevalorizam transes e êxtases, paralisias e sensações corporais.

-     retornar na forma obsessiva- e temos comportamentos e pensamentos obsessivos transformados em rituais cúlticos - privados ou públicos.

-     retornar na forma fóbica - certos objetos de culto, divindades ou inimigos da divindade são demonizados - despertam temor, pãnico - lá estão projetados os impulsos inaceitáveis - quase sempre na forma de sexualidade ou agressividade.

E, se não houve repressão, a religiosidade pode assumir a forma perversa - como tristemente assistimos à prisão de líderes religiosos que castravam meninos para suas oferendas.

A religião também pode retornar associada com outras pulsões - como a agressiva - e então assistimos a caça aos hereges, agressividade legitimada e até recompensada por um ser divino.

Graças a Freud, podemos desmascarar o neurótico, o perverso e o psicótico presente na religiosidade. Mas, será que temos de, com nossas interpretações, promover a varredura da pulsão religiosa da cultura e do imaginário humano?

O pastor e psicanalista Pfister agradecia a Deus pela genialidade de Freud, que lhe possibilitava retirar os ídolos dos átrios dos templos.

Qual então pode ser o futuro da religião?

Gostaria de fazer uma associação com outra expressão pulsional - a do amor

Ele também surge de formas tão neuróticas, perversas e doentes, mas nunca houve tentativa séria de erradicá-lo, só porque se mostra doente. Antes, a tentativa da humanidade tem sido no sentido de aprimorar nossa capacidade de amar.

Pfister labutava no mesmo sentido, para a religião - que a psicanálise fosse a "humilde lavadora dos pés da verdade" - limpando as sujeiras que a conflitiva humana aglutinou nas suas devoções.

Por isso, a psicanálise tem de continuar varrendo ídolos, sendo iconoclasta, retirando amuletos e rezas fortes e fracas, pilotos automáticos da devoção.

Mas, aí cessa seu papel...

Pfister defendia junto a Freud, e neste artigo publicado na própria revista de Freud - que uma religiosidade purificada e purificadora poderia se ligar ao amor - debaixo do conceito cristão de graça.

O imperativo do amor poderia substituir o imperativo do dever - gênese da obsessão, do recalcamento,.

Não cessamos de amar depois que nos analisamos - antes amamos mais e melhor - Não precisamos parar de crer depois que descobrimos a neurose incrustada em nossas crenças - podemos amar mais e melhor, aceitar mais nossa humanidade com suas ambivalências e falhas - a tolerância para conosco e para com os outros.

A religião mais perigosa, e que deve merecer o controle e a denúncia das autoridades - é aquela que mescla a pulsão agressiva à pulsão religiosa. Esta mescla pulsional gera morte - e não estamos mais nos tempos de Comte ou Darwin, de acreditar que haja uma progressão da humanidade rumo à perfeição. O caos pulsional sempre está à espreita por baixo da casca da cultura, e pode se combinar em formas tão destrutivas como o fanatismo religioso.

É a combinação da pulsão religiosa com a amorosa que transforma até a pulsão agressiva - desta forma podemos entender os depoimentos daqueles criminosos que se tornam doces ao se converterem a uma fé religiosa.

Pfister, ironicamente, está mais próximo do conceito judaico de pulsão - ao menos como colocado na voz do rabino Halévy na fábula sobre as religiões, escrita por Shafique Keshavjee:

"A pulsão sexual e a pulsão espiritual são as duas faces de uma mesma moeda. E essa moeda é aquela que o próprio Deus cunhou. Na carne do ser humano está inscrita uma pulsão biológica e afetiva que o faz sair de si mesmo para acolher um outro, uma outra.

No espírito do ser humano está inscrita uma pulsão metafísica e espiritual que o faz sair de seu ego para descobrir o Outro por excelência, Deus. Da mesmo forma que uma mulher pode ficar obcecada pelo rosto de um homem e um homem pelo de uma mulher, Deus é o grande Sedutor que obceca a alma humana. Sem essas duas pulsões que se encontram interligadas, a vida seria aborrecida, centrada sobre si mesma."

Enquanto os cristãos matavam os mouros em nome de Deus, viveu o cristão Francisco de Assis que,  depois de tentar impedir a realização de mais uma mortífera cruzada, foi pessoalmente ao califa muçulmano.

Chegando lá, foi agredido sem revidar, permaneceu preso até que sua conduta chamou tanta atenção que o califa o recebeu. Depois de muitos dias em conversas amistosas, acontece a despedida e a bênção que até hoje perdura entre muçulmanos e franciscanos,

Francisco, admirado por Freud e Pfister.

Exceção entre todos? Quantos anônimos religiosos, de muitas confissões e credos, associaram sua pulsão religiosa com a amorosa, e geraram vida e não morte. Talvez, a única morte, neste nível, seja a do próprio Eu, e até do próprio corpo.

Esta religião tem futuro e gera futuro, porque gera vida. A religião que mais prefere morrer - desde a dimensão simbólica até, se for preciso, na dimensão concreta - esta gera vida - a parábola do grão de trigo - agregada à história da tensão do joio - agüentar o diferente, a tensão das interfaces - como nós, autores diferentes que temos nos unido em torno das reflexões sobre a religião.

Como expressão desta religiosidade, me comovo cada vez que relembro o exemplo do casal judeu messiânico que, em função da sua fé, abriu uma casa para cuidar de órfãos...palestinos. Fizeram-no em nome de Deus.

Karin Wondracek - Psicanalista, Doutora em Teologia

em 16/11/2013

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