Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Cada pessoa tem sua rotina...
Podemos mesmo dizer que a rotina de vida de cada um é uma demonstração da criatividade com que o ser humano sobrevive à tirania doméstica, ajeitando-se no cotidiano...

Cada pessoa tem uma rotina de vida. Não é arbitrária, não é leviana. É resultado de anos e anos de lutas e adaptação. Lutas para manter a própria individualidade. 

E adaptação aos ensinamentos, às pressões, às necessidades. Podemos mesmo dizer que a rotina de vida de cada um é uma demonstração da criatividade com que o ser humano sobrevive à tirania doméstica, ajeitando-se no cotidiano.

Exatamente por isso, por ser a soma de tantos elementos diferentes, é impossível encontramos duas rotinas idênticas. E mais impossível ainda é encontramos duas rotinas quase idênticas casadas entre si.

Em termos de pasta de dentes, por exemplo, é raro, raríssimo casarem dois espremedores por baixo ou dois apertadores pelo meio.

Querer, portanto, que a rotina de alguém que foi educado em ambiente e modo diferente do nosso se sobreponha com exatidão àquela rotina que consideramos parte essencial de nós mesmos é uma forma de delírio romântico que nada justifica.

Entretanto, um tipo de erro pode-se estabelecer entre duas pessoas de temperamento diferente, já antes do casamento, e se agravar depois. É a falsificação, combinada com a aposta no futuro.

Namorada, noiva, ela se adapta aos gostos dele, finge adorar o futebol aos domingos e até ir ao estádio juntinho, fica durante horas de caniço nas mãos em penhascos ventosos.

Conta seduzi-lo com sua mimetização faz-se de igual para que ele a queira. Casada, porém, revela-se a diferença. Já não é mais preciso seduzir. O ódio pelo futebol pode explodir claramente, nem vista por ninguém nunca mais exposta às intempéries em busca de um mísero peixinho.

Assim também ele, apaixonado aspirante a marido, submete-se dócil aos desejos dela. O beijo é precedido de longas carícias, olhares românticos, frases doces. A necessidade de carinho dela é preenchida.

Nem se atreve ele a ficar lendo enquanto ela quer conversar. Recita atento o papel do amante perfeito, aceitando todas as exigências, certo de que depois de casados saberá fazer valer sua voz de dono, e a modificará de acordo com seus moldes.

Nos dois casos temos aquilo que chama “crime com premeditação”. Só que não há um réu e uma vítima. Há duas vítimas, entaladas num mau casamento.

Gostar da montanha enquanto o outro gosta de mar pode complicar um pouco a vida, mas não é grave. Demorar horas no banheiro enquanto o outro espera do lado de fora pode irritar um pouco, mas não é grave.

Diferenças de humor e de timing atrapalham pouco e até bastante, mas não são graves. Graves são outras diferenças. Que também existem, e que, estas sim, pesam no equilíbrio matrimonial.

Eu vejo, por exemplo, com incredulidade e apreensão o casamento entre uma feminista e um machista, um conservador e uma liberal, um vanguardista e uma acadêmica, um anárquico e uma tradicionalista.

Ou seja, acho difícil acreditar nas possibilidades de convivência amorosa e harmoniosa entre duas pessoas cujos ideais são antagônicos.

Se o seu marido explode pasta de dentes até no espelho, isso pode te irritar. Mas é só passar uma ponta de toalha ou um pedacinho de papel higiênico para que tudo volte ao normal (ao seu normal).

Não houve agressão. E é provável que após algum tempo você automatize o gesto de limpeza, assim como ele automatizou seu apertão, e nem aborreça mais com isso.

Mas ideal não é pasta de dentes, não é reflexo condicionado. É a resposta mais plena que cada um consegue dar às indagações da vida, ao por que do próprio ato de existir. É a maneira com que tentamos nos inserir neste ato e justificar nossa presença. E é o ponto em que concentramos nossa capacidade de luta.

Como, então, partilhar o campo oposto ao nosso? Eu, que há anos tento refletir sobre o problema da mulher e defender seus direitos, não suportaria dividir cama e mesa com uma mulher que negasse esses direitos e me considerasse de alguma forma um ser de segunda categoria. Ou então poderia dividi-los literalmente, erguendo muros. E já não teríamos um casamento.

Este tipo de convivência, porém, pode funcionar dentro de outros esquemas, e nos trazer ás vezes dados muito reveladores sobre as pessoas. Se vejo o anárquico apregoado viver feliz ao lado da senhora indubitavelmente conservadora, respeitadora dos usos e das tradições; sou levado a crer que não existe ali milagre de adaptação e equilíbrio, mas sim que o companheiro não é tão anárquico quanto gostaria ou quanto apregoa, e que o conservadorismo da mulher lhe serve de âncora e proteção.

Teríamos aí um esquema de “apoio”. Ele, que não é fundamentalmente anárquico, se apóia nela para ousar o anarquismo que habita suas fantasias. E lança tranqüilo, sabendo que, como um elástico, as convicções dela o trarão de volta a lugar seguro toda vez que ele for além da conta.

Ao contrário de mim, entretanto, há quem afirme não só a possibilidade de sucesso, como a excelência de se escolher para parceiro uma pessoa diametralmente oposta.

Seria o que se pode chamar de “teoria dos opostos”, segundo a qual o resultado melhor pode ser obtido somando-se as extremidades.

Seria o caso, por exemplo, de Janete Clair e Dias Gomes, reconhecidamente um dos casais mais felizes do nosso mundo artístico. Em uma entrevista, Janete declarou que, enquanto ela é católica praticante. Dias é ateu; ela é uma autora romântica, e ele é realista; ele adora comida baiana, ela gosta mesmo de comida árabe; ele é fanático por futebol e ela não sabe nem o que deva ser feito com a bola.

“Mas apesar disso tudo, ele é o homem da sua vida”, disse ela.

Grandes ou pequenas, o fato é que as diferenças existem, e é parte de qualquer casamento. Se bem tratadas, porém, deixam de constituir uma ameaça, para se transformarem em tempero de um cotidiano que, muito plano, poderia ser monótono. E bom trato, no caso, equivale a bom senso.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 06/12/2013

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