Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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O desejo refreado por medo da paixão
Fernanda se desculpa: “Não sei o que acontece comigo”. Mas não seria difícil. Suas amigas sabem que ela não é bem casada. Sabem que não ama o marido. E sabem que defende aquela morna relação...

O desejo refreado por medo da paixão é assim que Fernanda e tantas outras mulheres se encontram no seu dia-a-dia.

- Como posso se sou casada? Nem quero pensar nisso. Imagine. Trair meu marido!!! E se ele soubesse? 

A idéia de adultério parece a Fernanda inconcebível. Entretanto, mais de uma vez, frequentemente até, alimentou uma “fantasia de trair”, com outros homens.

- É verdade. Mas nunca passei disso! Não sei o que acontece comigo. De repente percebo que olho e penso demais num determinado homem. E penso em coisas intimas. Nele me beijando. Nele ordenando-me que eu tire a roupa. Em nós dois juntos, nos amando.

Fernanda se desculpa: “Não sei o que acontece comigo”. Mas não seria difícil. Suas amigas sabem que ela não é bem casada. Sabem que não ama o marido. E sabem também que defende aquela morna relação com unhas e dentes.

- Nunca deixaria que meu marido soubesse. Eu respeito muito nosso casamento. Mas é verdade que muitas vezes me entreguei a ele pensando que era outro que me apertava. Fico de um jeito que só consigo pensar nisso. Chego a sonhar noites seguidas, e a querer ir para cama para sonhar.

Fernanda troca uma realidade desagradável por uma fantasia agradabilíssima. Troca o marido que não ama pelo homem que pensa que ama. Troca sua imagem real de dona-de-casa pela imagem noturna de amante fogosa.

- Acho que fico até mais bonita quando estou assim. Eu me acho mais bonita. Olho no espelho, vejo meus olhos brilhando. E de repente tenho medo.

Fernanda tem medo da felicidade maior. E não quer se arriscar. Sua felicidade doméstica é pouca, mas é garantida. Sua rotina afetiva não lhe traz grandes sobressaltos de amor, mas nunca a deixará desamparada. Fernanda é atraída pela luz, mas tem medo de se queimar.

- Não, nunca levei nenhuma dessas minhas fantasias adiante. Nem mesmo os homens que as causaram souberam disso. Sempre fui muito discreta. Tenho certeza que se um dia acontecesse de eu ir mais além, eu ia me apaixonar. E apaixonada eu ia querer largar tudo, o marido, os filhos. Eu não tenho esse direito. Eu respeito muito meu marido.

O respeito ao marido é a válvula de segurança com que Fernanda controla seus impulsos, domina sua sensualidade.

Insatisfeita, subalimentada sexual e afetivamente. Fernanda não tem força para exigir aquilo que lhe falta. Nem agüenta viver em tão grande carência. Então “rouba” seu alimento, sem fazer vítimas, sem deixar rastros. O equilíbrio que a vida doméstica representa para ela é preservado. Ela consegue viver a paixão em fantasia, sem ser arrastada.

- Aos poucos a coisa vai diminuindo. Sem que eu perceba, outros pensamentos começam a ocupar meus devaneios eróticos. O homem parece afastar-se. Eu fico quase triste, quando me dou conta, porque no fundo aquele amor todo era bom. Mas também me sinto aliviada, descansada. Enfim, mais uma vez, escapei.

Uma sensação de alivio acompanha o encerramento das crises fantasiosas de Fernanda. Ela aliviou sua tensão. Ainda que de forma irreal, ela soltou sua sensualidade.

E escapou de simplesmente apagar-se ao lado do marido, ou de explodir, vítima de suas pressões internas. Povoar suas noites de sexo e erotismo faz dela pelo menos uma mulher viva, palpitante. E ela emerge da crise pacificada.

À medida que pensamentos mais prosaicos vão se sobrepondo ao objeto da sua paixão, ela percebe que perdeu um amante, mas reforça a certeza de que pode vir a ter outro e mais outro, sem destruir o equilíbrio da casa, sem sucumbir a si mesma.

As fantasias de Fernanda e de tantas outras mulheres, são basicamente iguais: um homem diferente em sua vida, um amante, uma outra vivência. E para ela assim como para muitas mulheres, o homem em si não tem muita importância, o que conta é o papel que desempenha em seus devaneios. Diferentes, porém, são as motivações que levam a “construir” esses amantes.

Fernanda, assim como muitas mulheres decidiu de repente inventar uma linda fantasia de traição para se gratificar. A fantasia se impôs, criada por forças internas muito mais profundas do que elas sequer suspeitam. E por ter motivações tão profundas tornou-se indispensável.

A fantasia de trair não é a solução ideal, assim como não o são em geral as fantasias. Melhor seria certamente para Fernanda rever sua relação com o marido, e sua própria relação com a vida, para livrar-se de culpas que não tem, e parar de viver à sombra do medo e da sujeição. Sem necessidade de vingança perderia a necessidade de falsos amantes, e poderia reconquistar a realidade.

Para Fernanda também haveria outra solução. A de encarar diretamente seus problemas de afetividade, e lutar para soltá-la de forma mais direta, em vez de canalizá-la ambiguamente através de suas fantasias de traição.

E Fernanda talvez devesse procurar sua gratificação em outra área, a das realizações pessoais, do trabalho, da criação, da atividade. Além de se gratificar, estaria reforçando seu ego, podendo um dia questionar seu casamento de forma mais objetiva.

Nem sempre, porém, as soluções são possíveis. E ao reconhecer o valor das fantasias de trair, cumprem fazer a ressalva, elas serão tanto mais úteis quanto forem passageiros, estágios intermediários para compreensões mais definitivas.

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico

em 16/12/2013

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