Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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GILBERTO DIMENSTEIN
Tão fácil agarrar uma estrela, refletida no brilho de quem salvamos

Texto escrito especialmente para o livreto do CD ao vivo "Amigo" de Milton Nascimento.

 

Sentados à beira do rio, dois pescadores seguram suas varas à espera de um peixe. De repente, gritos de crianças trincam o silêncio. Assustam-se. Olham para frente, olham para trás. Nada. Os berros continuam e vêm de onde menos esperam.

 

A correnteza trazia duas crianças, pedindo socorro. Os pescadores pulam na água. Mal conseguem salvá-las com muito esforço, eles ouvem mais berros e notam mais quatro crianças debatendo-se na água. Desta vez, apenas duas são resgatadas. Aturdidos, os dois ouvem uma gritaria ainda maior. Dessa vez, oito seres vivos vindo correnteza abaixo.

 

Um dos pescadores vira as costas ao rio e começa a ir embora. O amigo exclama:

 

- Você está louco, não vai ajudar?

 

Sem deter o passo ele responde:

 

- Faça o que puder. Vou tentar descobrir quem está jogando as crianças no rio.

 

Essa antiga lenda indiana retrata como nos sentimos no Brasil. Temos poucos braços para tantos afogados. Mal salvamos um, vários descem rio abaixo, numa corrente incessante de apelos e mãos estendidas. Somos obrigados a cair na água e, ao mesmo tempo, sair à procura de quem joga as crianças.

 

Incrível como os homens às margens do rio conseguem conviver com os berros. E até dormir sem sobressaltos. É como se não ouvissem. Se o pior cego é aquele que não quer ver, o pior surdo é aquele que não quer escutar.

 

Descobrimos que os responsáveis pelos afogados não estão escondidos rio acima. Estão do nosso lado - e, muitas vezes, somos nós mesmos. São os afogados morais, gente que não conhece o prazer infinito da solidariedade. Não conhece o encanto de estender poucos centímetros de braço e encostar os dedos nas estrelas.

 

Tão fácil agarrar uma estrela, refletida no brilho de quem salvamos por falta de ar.

 

Veio da Índia a frase do célebre poeta Rabindranath Tagore sobre por que existiam as crianças. "São a eterna esperança de Deus nos homens".

 

É preciso mesmo infinita paciência, renovada a cada nascimento, para que se possa conviver com a apatia cúmplice. Por sorte temos pescadores que, dia após dia, mostram como as crianças sobrevivem nos homens. E como é doloroso o parto de um homem precoce no corpo de um menino.

 

A voz de Milton é a própria síntese do menino perdido no adulto; e do adulto perdido no menino. É a síntese de quem se viu obrigado a pular na água para pescar a si mesmo. E nunca se esqueceu e, por isso, não consegue tirar de seus ouvidos a sensação de que crianças na água pedindo socorro, são a última voz de quem quase nunca tem voz.

Gilberto Dimenstein

QUEM É

Gilberto Dimenstein nasceu em São Paulo (SP), em 28 de agosto de 1956. Iniciou no Jornalismo em 1977, na revista Shalon (SP), da Comunidade Judaica do Brasil. Formado na Faculdade Cásper Líbero, é colunista da Folha de S.Paulo (SP) e comentarista da rádio CBN (SP).

 

Já foi diretor da Folha de S.Paulo, na sucursal de Brasília, e correspondente internacional em Nova York (EUA). Desde 2011 integra o Conselho Editorial do jornal. Vive nos Estados Unidos, onde desenvolve o projeto de Comunicação para a Cidadania, a convite da Universidade Harvard, em Cambridge (EUA).

 

Trabalhou também nos jornais O Globo (RJ), Jornal do Brasil (RJ), Correio Braziliense (DF), Última Hora (SP) e nas revistas Educação (SP), Visão (SP) e Veja (SP). Foi acadêmico visitante do programa de Direitos Humanos da Universidade de Columbia, em Nova York.

 

Passou a se dedicar mais aos temas sociais entre 1991 e 1992, quando recebeu uma bolsa de estudos da MacArthur Foundation para investigar a violência e prostituição da criança na Amazônia. O resultado das apurações foi relatado no livro Meninas da Noite – A Prostituição de Meninas Escravas no Brasil (Ática, 1992), publicado em vários países.

 

O enfoque da temática não ficou apenas nas reportagens e comentários. Passou então a desenvolver ações sociais. Foi um dos criadores da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), disseminada pelo Brasil e vários países da América Latina. Em 1994, criou a ONG Cidade Escola Aprendiz, onde se desenvolve o programa Bairro-Escola, replicado com apoio do Unicef e Unesco em vários estados e cidades do País.

 

O projeto utiliza metodologia alternativa para a formação de profissionais do futuro, modelo que foi considerado, em 2009, “um exemplo de inovação comunitária” pela Escola de Administração de Harvard, e foi avaliado, pela Unesco, “como uma referência mundial”. O texto foi enviado ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

 

É também autor de projetos curriculares de comunicação aplicada em escolas, entre os quais o Colégio Bandeirantes (SP). Idealizou o site Catraca Livre, que foi desenvolvido, em julho de 2009, por estudantes universitários da USP, PUC, Faap, Mackenzie e Metodista, para suprir a necessidade de agrupar, em uma única plataforma, as novidades gratuitas do cenário cultural paulistano.

 

Está diariamente no Mais São Paulo, programa na rádio CBN que vai ao ar duas vezes por dia, e semanalmente no portal FolhaOnline e no jornal Folha de S.Paulo, com comentários assinados.

 

Comanda na rádio CBN, o programa Cidadão Jornalista, um espaço destinado aos leitores e ouvintes que, ao relatarem fatos e experiências de sua cidade, comunidade e cotidiano, se tornam repórteres por um momento.

 

Segundo o senador Cristovam Buarque, que criou a Bolsa-Escola [em depoimento quando era governador do Distrito Federal], Dimenstein é um dos inspiradores desse programa. O Bolsa-Escola foi uma das bases para a montagem do Bolsa-Família, que atende a 11 milhões de família em todo o Brasil.

 

Ganhou, em 1995, o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, junto com o cardeal d. Paulo de Evaristo Arns. Além disso, recebeu o Prêmio Criança e Paz, do Unicef e uma menção honrosa do Prêmio Maria Moors Cabot, da Faculdade de Jornalismo de Columbia (USA).

 

Outras premiações abrilhantam a carreira de Dimenstein. Entre elas estão: dois Prêmios Esso de Jornalismo – em 1988, na categoria Principal, com a reportagem A Lista da Fisiologia, e, no ano seguinte, na categoria Informação Política, com O Grande Golpe, ambas publicadas pela Folha de S.Paulo –, dois Prêmios Líbero Badaró de Imprensa, o Prêmio Jabuti de Literatura de Melhor Livro de Não-Ficção em 1993, com O Cidadão de Papel (Ática, 1993), além de um Prêmio Comunique-se, na categoria Jornalista de Cultura - Mídia Livre, em 2012.

 

Entre outras obras de sua autoria destacam-se: A República dos Padrinhos: Chantagem e Corrupção em Brasília (Brasiliense, 1988); As armadilhas do poder – Bastidores da imprensa (Summus,1990); A Guerra dos Meninos – Assassinatos de Menores no Brasil (Brasiliense, 1990); A Democracia em Pedaços (Companhia das Letras, 1996); O Aprendiz do Futuro (Ática, 2005); O Mistério das Bolas de Gude (Papirus, 2006); Fomos Maus Alunos (Papirus 7 Mares, 2009) e Mundo de REP (Melhoramentos, 2010). O Mistério das Bolas de Gude também saiu em audiolivro (Audiolivro, 2006). As obras tratam de assuntos polêmicos para a sociedade brasileira e são usadas, com sucesso, por várias escolas do País.

 

Em coautorias, ele assina: A Aventura da Reportagem (Summus, 1990), com Ricardo Kotscho; A História Real – Trama de uma Sucessão (Ática, 1994), com Josias de Souza; O Brasil na Ponta da Língua (Ática, 2002), com Pasquale Cipro Neto; Quebra-Cabeça Brasil (Ática, 2003), com Álvaro Cesar Giansanti; Heróis Invisíveis (Wide Publishing, 2004), com os fotógrafos Luiz Garrido, Christian Gaul e Edu Simões; Prazer em Conhecer (Papirus 7 Mares, 2008), com Miguel Nicolelis e Drauzio Varella; Dez Lições de Filosofia para um Brasil Cidadão (FTD, 2008), com Giansanti e Heide Strecker; Dez Lições de Sociologia para um Brasil Cidadão (FTD, 2008), com Giansanti e Marta M. A. Rodrigues; Escola Sem Sala de Aula (Papirus 7 Mares, 2010), com Antonio Carlos Gomes da Costa e Ricardo Semler; É Rindo que se Aprende (Papirus 7 Mares, 2011), com Marcelo Tas, e O Cidadão Invisível (Ática, 2011), com Ivan Jaf e Eduardo Ferigato.

 

Com Heloísa Pietro, escreveu os livros de literatura infantil Mano Descobre a Solidariedade (2001), Mano Descobre a Ecologia (2002), Mano Descobre a Paz (2003), Mano Descobre a Confiança (2004), Mano Descobre a Diferença (2010), Mano Descobre a Liberdade (2010) e Mano Descobre o Amor (2011), todos publicados pelas editoras Ática e Senac.

 

Dimenstein é sempre convidado para palestras que abordam assuntos sobre educação, habilidades e competências.

 

Deixou a Folha de S.Paulo após 28 anos de dedicação. Sobre o desligamento, explicou na última postagem da coluna: "Saio da Folha com a gratidão de quem teve suporte para fazer da vida um laboratório. Mas a Folha não sai de mim: estará sempre associada à sensação de que o exercício da imaginação é o que nos torna singulares e relevantes".

 

em 20/01/2014

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