Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Quando uma fala é constante...
Eu nunca amei de verdade. Eu acho que nunca mesmo. Se tivesse amado eu saberia, não saberia? A gente não tem dúvida quando ama, tem?

Algumas coisas sempre se repetem em conversas do dia-a-dia, por exemplo, a narrativa que eu criei abaixo. Essa narrativa eu já presenciei de várias formas, dentre elas, em conversa com amigas e amigos, em conversa com alunos, em conversa com pacientes e também leituras de revistas femininas e masculinas. 

Usei a imagem fictícia de uma mulher, mas ao escrever foi lembrando que já ouvi o mesmo discurso de vários homens, ou seja, essa narrativa cabe bem tanto para os homens quando para as mulheres.

A intenção é promover uma provocação analítica de algo que tem tomado forma em nosso contexto social. Pense comigo:

“Fico até sem jeito de falar, porque ele é muito bom pra mim, ele não merece. Mas até pra ele eu já disse, ele diz que não se importa que quer se casar assim mesmo, que o amor cresce depois.

Tivemos dois anos de namoro e são dois e meio de noivado. No começo eu achava que gostava dele, que ia gostar mais. Mas não gostei. Acho até, que fiquei gostando menos.

Quer dizer, menos exatamente não, mas diferente, como se gosta de parente, com carinho, com ternura, mas sem paixão.

Eu quero bem a ele, não gostaria que nada de ruim lhe acontecesse, às vezes até penso que caso com ele por isso, para não magoar ele agora que já aprontou tudo, até apartamento comprou.

Meu medo é um dia aparecer para mim um grande amor. Daqueles violentos, que a gente não segura. Aí , eu não sei o que faço. Tenho medo de perder a cabeça, de largar tudo, casa, marido, tudo! Eu não sei se ia conseguir me segurar. E mesmo que conseguisse, ia sofrer.

Meu noivo me dá muita segurança. Com ele sei que estou garantida, que ele vai cuidar de mim, ser um bom pai para os meus filhos. Ele é sério, direito, trabalhador, nunca vai ser ruim. Disso eu tenho certeza. Todas as minhas amigas tem inveja, acham que é o tipo de marido que a gente pede a Deus. Eu também acho. Só tem que eu queria gostar mais dele.

Sabe o que é? Eu me sinto como se estivesse um buraco na minha vida, uma coisa faltando... Como se eu não tivesse, sei lá, nunca comido sorvete, uma coisa que todo mundo conhece menos eu, que todo mundo fala, só eu fico ouvindo, que parece que acontece com todo mundo, menos comigo.

Eu nunca amei de verdade. Eu acho que nunca mesmo. Se tivesse amado eu saberia, não saberia? A gente não tem dúvida quando ama, tem? Pois é, isso é que me põe angustiada. Acho até que eu poderia viver feliz com meu noivo se não tivesse esse pensamento na minha cabeça me consumindo.

Fui falar isso uma vez com a minha mãe, e ela me disse que era bobagem, que eu estava vendo muita novela, que esses amores assim como eu queria são coisas de romance, de livro, que casamento não precisa de nada disso para ser bom. Eu sei que se eu quisesse romper com meu noivo ela nunca ia me perdoar, ela não ia entender, ninguém ia, nem ele.”

E para a Sheyla, o que é que nós poderíamos dizer? Que ela está certa? Que ela está errada? Este amor manso, “de parente”, que ela sente pelo noivo não parece ser muita coisa, mas já é alguma coisa. E tem gente, provavelmente a mãe dela, que se contenta com alguma coisa, mas nós somos mais exigentes.

Então, no problema de Sheyla, vamos procurar uma “ponta de fora”. Quando as situações parecem meio insolúveis, há sempre um detalhe qualquer que nos ajuda a ver outros lados da história.

Nas palavras de Sheyla há realmente um detalhe curioso. Ela nunca amou. Ora, não se trata de uma menina, Sheyla tem 25 anos, sempre morou em cidade grande, tem uma família numerosa, estudava, conhece uma porção de pessoas.

Oportunidades de encontrar homens interessantes não lhe faltaram, nem lhe faltam. Como, então, nenhum despertou amor nela? E por que, entre tantos que lhe eram indiferentes, escolheu este noivo?

Penso que seja por aí que nós poderíamos talvez entender este morno amor. Um amor que não queima, que não oferece riscos, que não exige nada. E que recebe tudo em troca. Um amor, afinal de contas muito conveniente. Pois o noivo, mesmo sabendo pouco amado, dispõe-se a ser bom marido e bom pai, compra apartamento, providencia tudo, e ama pelos dois.

Fica, porém para a Sheyla o desejo de um grande amor. E aí talvez nós tenhamos mais uma “ponta de fora”. Por que, tendo-se proibido um grande amor até agora, ela receia tê-lo depois? Talvez por temer que, garantida finalmente na vida, garantida a segurança, garantido um ser amante a seu serviço, as suas ofensas se enfraqueçam e ela se deixe “escapar” finalmente um amor de verdade.

O que surpreendentemente parece se esboçar é que aquele morno amor de que Sheyla se queixa é na verdade exatamente o morno amor que ela quer, e que determinadamente procurou.

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalísta Clínico

em 10/02/2014

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