Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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Velhice e a fragilidade
"Sempre ouvimos dizer que o idoso onera o sistema público de saúde. Mas isso acontece porque ele chega em condições muito ruins..."

Para que servem coisas velhas? Essa pergunta, que parece ingênua, é carregada de um horror surgido na época atual. Porém não deveríamos redimensionar a nossa forma de pensar/agir referentes ao envelhecer?
Para que servem coisas velhas? Essa pergunta, Horror originado dos avanços tecnológicos e científicos, além da mudança de pensamento da atualidade, no qual tudo fica ultrapassado e sempre tem algo melhor e mais novo para substituir.

Uma reflexão a respeito do tema fez perceber que não é apenas um "manter-se atualizado” que as pessoas buscam. Existem considerações a serem feitas que estão por trás desse pensamento: o horror pode ser uma projeção de temores inconscientes. "projeção - no sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro - pessoa ou coisa - qualidades, sentimentos, desejos e mesmo "objetos" que ele desconhece ou recusa nele. Trata-se aqui de uma defesa de origem muito arcaica, que vamos encontrar em ação particularmente na paranóia, mas também em modos de pensar "normais", como a superstição." (pág. 374, Laplanche e Pontalis, 1994).

Se projetarmos em outros, qualidades que não reconhecemos como nossas, tentamos evitar o horror que sentimos ao saber da brevidade da nossa existência. Jack Messy faz a seguinte reflexão "Temos que ter medo da velhice? Fazer a pergunta é reconhecer implicitamente a existência de um temor. Como não ter medo de algo que tem parentesco com a morte? O envelhecer sublinha nossa temporalidade. Então, para prevenir do drama a todo entendedor que procure aí sua salvação, damos a entender que o envelhecimento apenas diz respeito ao velho, e como, de todo modo o velho... é o outro...! Estamos fora das ameaças do tempo." (pág. 12, Messy, 1993).
O envelhecer significa a aproximação da morte, do fim da existência, aonde tudo termina e não tem mais volta... por isso o velho sempre é o outro. O horror que sentimos pelo envelhecimento é o medo de morrer, de se tornar tão repugnante quanto o outro que fica cego, surdo, "gagá", etc... "Que horror se isso acontecer!" Mas todos envelhecem, é inevitável (a não ser quem morre cedo demais... por motivos diversos), então o que fazer? Deixar o tempo passar ficar velho e receber o preconceito dos mais jovens? Não!

"Nas sociedades ocidentais contemporâneas o prolongamento da vida humana é, sem dúvida, um ganho coletivo. (...) tratar das representações e dos estereótipos do papel do idoso, nesse contexto, é refletir sobre as formas pelas quais a solidariedade pública entre gerações é redefinida contemporaneamente. Estabelecer uma relação entre velhice e solidariedade pública entre gerações é descrever o processo pelo qual a gestão da velhice é progressivamente socializada: durante muito tempo considerada como própria da esfera privada e familiar, uma questão de previdência individual ou de associações filantrópicas, ela se transforma em uma questão pública." (pág. 01, Debert, 1996).

Não podemos esquecer que os avanços científicos e tecnológicos também ajudaram a prolongar mais a vida; mas não apenas isso contribuiu também para a qualidade de vida dos mais velhos. Um exemplo disso é a possibilidade de se retomar as atividades sexuais quem há muito tempo perdeu o desejo...

"Com isso, é possível inscrever a figura dos idosos nas cadeias simbólicas de novas temporalizações, retirando-o do confronto frontal com o "outro absoluto" que é a morte, capaz então de protegê-lo dos estilos subjetivos da depressão, da paranóia e da mania. Enfim, mediante a psicanálise, fundada no Édipo marcado pela dívida simbólica, o Ocidente constituiu um saber para possibilitar ao sujeito a evocação da memória ancestral e um luto possível em face da inevitabilidade da morte" (pag. 48, Birman, 1995).

Portanto devemos redimensionar a nossa forma de pensar/agir referentes ao envelhecer. Devemos refletir mais sobre nossa concepção de mundo e de homem, tentando evitar o pensamento que a tecnologia impõe de que o novo substitui o velho e que o velho não serve para nada mais. Devemos desenvolver mais atividades com a terceira idade, para a melhora da qualidade de vida da população idosa. Respeitar o velho ou o "outro" é respeitar a si mesmo e significa exercer cidadania.

Fábio de Castro da Agência FAPESP - A fragilidade em idosos - uma síndrome clínica que se caracteriza por perda de peso involuntária, fadiga, fraqueza, diminuição da velocidade de caminhada e baixa atividade física - atinge a população da cidade de São Paulo precocemente em relação aos países desenvolvidos e, depois dos 75 anos, avança com extrema rapidez.

A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) com uma amostra de 689 pessoas com mais de 75 anos na capital paulista. A síndrome, de acordo com a pesquisa, atingia 14,1% do grupo em 2006. Em 2008, apenas dois anos depois, a prevalência já era de mais de 45%.

O trabalho, que teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa - Regular, está ligado ao Projeto Temático "Saúde, bem-estar e envelhecimento (Sabe-2005) - Estudo longitudinal sobre as condições de vida e saúde dos idosos no município de São Paulo”, coordenado pelo professor Ruy Laurenti, do Departamento de Epidemiologia da FSP.

A coordenadora do subprojeto, Yeda Duarte, professora da Escola de Enfermagem (EE) da USP, afirma que até agora, no Brasil, a síndrome de fragilidade não havia sido tema de estudos longitudinais - isto é, que buscam correlações entre variáveis partindo de observações ao longo de um extenso período de tempo.
"A questão da fragilidade tem sido bastante trabalhada em outros países, mas no Brasil estamos apenas começando. No exterior, a prevalência da fragilidade varia entre 7% e 35%, dependendo do país e do desenho do estudo. Nossa pesquisa mostra uma porcentagem bem maior aos 75 anos, o que indica que nossos idosos estão se fragilizando mais cedo”, disse à Agência FAPESP.

Segundo Yeda, não existe um consenso definitivo sobre o que é a fragilidade. O conceito adotado na pesquisa - desenvolvido por Linda Fried, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos - caracteriza a síndrome a partir de cinco parâmetros: perda involuntária do peso, fadiga, diminuição da velocidade de caminhada, baixa atividade física e perda da força - medida por força de preensão manual.

"A ausência desses parâmetros indica que a pessoa não é frágil. A presença de um ou dois deles caracteriza a condição de pré-fragilidade - e entendemos que esse é o momento para uma intervenção. Três ou mais parâmetros indicam que a pessoa é frágil”, explicou.

O idoso frágil, segundo Yeda, fica mais vulnerável e tende a sofrer com mais efeitos adversos, o que gera um círculo vicioso que o torna mais dependente e mais suscetível a doenças.

"A pessoa nessa faixa etária, em geral, come menos, tem perda do paladar e menos gasto energético. Ela perde peso porque tem menos massa muscular e, com isso, cansa com facilidade e anda muito devagar. Assim, diminui sua atividade física e gasta ainda menos energia, o que a leva a comer menos”, disse.

A fragilidade tem sido um dos três focos principais do Projeto Temático Sabe-2005. Os outros dois são as questões das demências e do envelhecimento ativo, isto é, a promoção da saúde com o objetivo de que a população chegue a idade avançada com melhor qualidade de vida.

"Não adianta trabalhar para que as pessoas vivam mais se não pudermos fazer com que elas envelheçam com qualidade de vida. Por isso achamos fundamental conhecer os fatores determinantes da fragilidade, que é uma condição que leva à dependência e ao sofrimento”, destacou.

Deixados de lado

A partir dos dados de 2006, extraídos do Sabe-2005, os pesquisadores selecionaram uma amostra que representa a população paulistana com mais de 75 anos. O grupo foi acompanhado a cada seis meses por dois anos, entre 2008 e 2009. A visita de 2006 mostrava que o grupo de não-frágeis correspondia a 31% da população. Os pré-frágeis eram 54,9% e os frágeis eram 14,1%.

"Isso mostrava que a maioria da população dessa idade já era pré-frágil. Se a população está se fragilizando antes dos 75 anos, indica que as pessoas terão um período extremamente longo de vida em condição de dependência e incapacidade”, comentou Yeda.

A mesma população foi acompanhada em 2008 pelos pesquisadores. A parcela dos pré-frágeis caiu ligeiramente para 49,1%. Mas houve aumento brutal dos frágeis (45,4%) e queda dos não-frágeis (5,6%).

"É provável que muitos pré-frágeis tenham passado para o grupo dos frágeis. O que verificamos é que, em um período muito curto, o idoso mais longevo passa a precisar de um acompanhamento frequente. Se não houver uma intervenção adequada, ele tem uma tendência à piora extremamente rápida”, disse.

Não é fácil, segundo Yeda, levar um idoso frágil ao serviço de saúde, justamente por conta de sua condição. Com isso, ele é muitas vezes hospitalizado apenas quando já está em estado crítico.

"Sempre ouvimos dizer que o idoso onera o sistema público de saúde. Mas isso acontece porque ele chega em condições muito ruins. Se pudéssemos cuidar para que ele não se tornasse frageis, evitaríamos a ida para a urgência em estado grave, impedindo internações muito longas. Cuidar da fragilidade é fundamental para desonerar o sistema”, explicou.

Entre os idosos frágeis visitados em 2008, uma parcela de 46,9% sofreu quedas, contra 6% dos não-frágeis. Entre os frágeis que caíram, 53,5% foram hospitalizados. Desses, 50% procuraram serviços de urgência.
Do grupo de idosos frágeis, 30,6% mostraram necessidade de um cuidador, pois não conseguiam realizar sozinhos tarefas como comer, tomar banho ou levantar-se de uma cadeira. "Precisamos mudar o paradigma de tratamento da pessoa idosa. Não adianta oferecer apenas hospitais, é preciso mudar a intervenção na direção de oferecer acompanhamento a essa população”, disse Yeda.

A professora da EE-USP conta que a Prefeitura de São Paulo criou um programa de acompanhantes de idosos que indica a direção certa para as políticas públicas. A iniciativa atende 1,5 mil idosos da cidade que moram sozinhos e têm algum grau de dependência física ou mental, oferecendo cuidadores treinados.

"Isso é fundamental, porque essas pessoas ficam em casa, não comem, não andam e se fragilizam cada vez mais. O problema é a escala. Estimamos que existe 1,2 milhão de idosos na cidade de São Paulo e nossa pesquisa mostrou que metade deles é frágil. Esse tipo de programa precisa ser replicado e ampliado”, disse.
Yeda conta que, a partir de agora, o grupo de pesquisa deverá realizar um novo projeto para estudar a fragilidade a partir dos 60 anos. "Como nossos resultados mostraram que a prevalência já é muito alta aos 75 anos, precisamos estudar agora os determinantes da síndrome em uma faixa etária anterior”, disse.


Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico


Referência:

BIRMAN, Joel - Futuro de Todos Nós: Temporalidade, Memória e Terceira Idade na Psicanálise in Terceira Idade: Um Envelhecimento Digno para o Cidadão do Futuro, Organizador Renato Veras, Editora Relume Dumará, 1995.

DEBERT, Guita Grin - As Representações (Estereótipos) do Papel do Idoso na Sociedade Atual - Trabalho Apresentado no Seminário Internacional "Envelhecimento Populacional: uma Agenda para o Final do Século" - Auditório do Palácio do Itamaraty, Brasília, 1º a 3 de julho de 1996.

LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J-B. - Vocabulário da Psicanálise, São Paulo: Martins Fontes, 1994.

MESSY, Jack - A Pessoa Idosa não Existe: uma Abordagem Psicanalítica da Velhice, São Paulo: Aleph, 1993.


 

 


 

em 03/02/2010

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