Psicólogo / Psicanalista Clínico ABMP Nº 04909-09
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A identificação com outra pessoa
Me parece que o ser apaixonado alcança o impossível, e por ser o impossível, não perdura. O impossível é dar nome a algo inominável, é se apropriar de algo inapropriável...

Amor, amada minha, eu queria tanto, tanto te conhecer, esgueirar-me lentamente no teu corpo, deslizar meus dedos por dentro das tuas mãos e fazer dos teus dedos minhas luvas, aconchegar-me em ti, respirar teus pensamentos.

Amada, amada minha, eu queria tanto ser você, sem deixar de ser eu, porque assim, com certeza, para sempre me amarias.
Mas a final o que é, "ser o outro"?

Diz Melaine Klein em Amor, Ódio e Reparação: Ser verdadeiramente capaz de consideração significa que somos capazes de nos colocar no lugar de outras pessoas: identificamo-nos com elas...

A capacidade de identificação com outra pessoa é... condição para autênticos e fortes sentimentos de amor.

Só seremos capazes de desconsiderar ou até certo ponto de sacrificar nossos próprios sentimentos e desejos, e com isso de temporariamente colocar em primeiro plano os interesses e emoções do(a) parceiro(a), se tivermos a capacidade de nos identificarmos com a pessoa amada.

Amar, então, é a capacidade de estar no lugar do outro, de saber como ele pensa, quais são os seus desejos. Só posso colocar em primeiro lugar a emoçoes do(a) parceiro(a) se sei quais elas são.

Se amo sem conhecer, não estou amando outra pessoa, nem querendo satisfazer os seus desejos. Estou querendo satisfazer os meus através dela, que uso como suporte das minhas fantasias. Amando, quero a transparência, quero ver através.

Embora lutando pela transparência em qualquer situação, sempre pensamos nela como reveladora do bem, e não do mal. No fundo, queremos que ela nos sirva como reforço, garantia daquela felicidade que já intuimos. De um individuo que nos ama, mas que se nos apresenta opaco, pensamos: "Ele é bom para mim, eu o vejo bom. Mas pode estar me enganando."

Já daquele(a) que vem a nós deixando-se ver, pensamos:"Vejo através dele(a), dentro dele(a), e sei que não está me enganando. Ele(a) é bom/boa, e eu posso amá-lo(a) serenamente."

Freud à partir dos três ensaios sobre a sexualidade, vai descrevendo o processo de sexuação/subjetivação humana, como uma tentativa de convergência das pulsões sexuais infantis (perverso polimorfo) à uma organização genital adulta, na qual estaria presente a possibilidade de reprodução. Na organização genital adulta, as pulsões se unificariam sobre o primado da genitalidade e reencontraria então a fixidez e a finalidade aparentes do instinto.

Sabemos, entretanto, que este encontro/reencontro é da ordem do mítico. A pulsão nunca se satisfaz; não pela “inadequação radical dos objetos”, como coloca Olivia, mas pela inadequação da sua própria proposição - satisfazer-se.

A pulsão cega, muda e perdida, encontra seus olhos, sua boca e seu rumo no discurso amoroso. O discurso amoroso que, diga-se de passagem,  não recobre somente aquilo que entendemos como os belos gestos ou as belas palavras, mas também os mais odiosos gestos e as mais estúpidas palavras.

“ O discurso amoroso (odioso) sufoca o outro, que não encontra lugar algum para a sua própria fala nesse dizer maciço. Não é que eu o impeça de falar, mas sei como fazer para deslizar os pronomes : Eu falo e você me ouve, logo nós somos (Ponge). Às vezes, com terror, me conscientizo dessa inversão: eu que me acreditava puro sujeito  (sujeito submisso: frágil, delicado, miserável) , me  vejo transformado em coisa obtusa, que avança cegamente, que esmaga tudo sob seu discurso: eu que amo, sou coisa indesejável, faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam, atrapalham, abusam, complicam, pedem, intimidam (ou apenas simplesmente: aqueles que falam). Me enganei monumentalmente.

(O outro fica desfigurado pelo seu mutismo,  como nesses sonhos terríveis onde certa pessoa amada aparece com a parte inferior do rosto inteiramente apagada, sem boca; eu que falo , também fico desfigurado: o solilóquio faz de mim um monstro, uma língua enorme.).”

Este amor revelado num dizer maciço assemelha-se ao dizer psicótico; parece-me que a condição do amor psicótico não leva em conta a distância dos corpos, esta distância que aprendemos a respeitar e que às vezes  nos parece insuportável: “A gente sabe guardar distância: à mesa, no trabalho, na rua, existe um espaço devido. Se me aproximo demais, coro, desculpo-me. Por que tal distância? Eu quero companhia e quero solidão, mas a distância convencional é menor que a pedida pelo desejo de estar comigo e muito maior que a proximidade consoladora dos amigos que faltam.”

A loucura não seria mesmo essa anulação da distância que sabemos guardar uns dos outros? Não seria ela mesma um espécie  de verborragia que não levando em conta os espaços entres as palavras inaugura uma outra linguagem? Linguagem que se estrutura para além ou aquém dos sentidos  alcançados pelos eixos de referência usuais com os quais caminhamos? Caligaris dizia que se os neuróticos organizam-se segundo um mapa terrestre, os psicóticos se organizariam segundo um mapa estrelar!

Mas seria mesmo só da loucura todas estas atribuições? Me parece que o ser apaixonado também almeja algo parecido: fazer de dois - um.  O ser apaixonado elege o seu amado`a condição de único, onipresente em seus pensamentos e em seu corpo. Onipotente em suas capacidades. Me parece que o ser apaixonado alcança o impossível, e por ser o impossível, não perdura. O impossível é dar nome a algo inominável, é se apropriar de algo inapropriável.

“Por uma lógica singular, o sujeito apaixonado percebe o outro como um Tudo (a exemplo de Paris outonal), e , ao mesmo tempo, esse Tudo parece comportar um resto que não pode ser dito. E o outro tudo que produz nele uma visão estética: ele gaba a sua perfeição, se vangloria  de tê-lo escolhido perfeito; imagina que o outro quer ser amado como ele próprio gostaria de sê-lo, mas não por essa ou aquela de suas qualidades, mas por tudo, e esse tudo lhe é atribuído sob a forma de uma palavra vazia, porque

Tudo não poderia se inventariado sem ser diminuído: Adorável! não abriga nenhuma qualidade, a não ser o tudo do afeto. Entretanto, ao mesmo tempo que adorável diz tudo, diz também o que falta ao tudo;  quer designar esse lugar do outro onde meu desejo vem especialmente se fixar, mas esse lugar não é designável; nunca saberei nada; sobre ele minha linguagem vai sempre tatear e gaguejar para tentar dizê-lo, mas nunca poderá produzir nada além de uma palavra vazia, que é como o grau zero de todos os lugares onde se forma o desejo muito especial que tenho desse outro aí (e não de um outro).”

Discutindo sobre o conceito de objeto (a), na teoria lacaniana, Nasio se pergunta: “Quem é o outro, meu parceiro, a pessoa amada? Quando Freud escreve que o sujeito faz o luto do objeto perdido, ele não diz ‘da pessoa amada e perdida’ e sim do ‘objeto perdido’. Por que? Quem era a pessoa amada que se perdeu? Que lugar ocupa para nós a ‘pessoa’ amada?

Mas, será realmente uma pessoa?  Coloquemo-nos no lugar do analisando, que deitado no divã, pergunta a si mesmo: ‘Quem é essa presença atrás de mim? É uma voz? Uma respiração? Um sonho? Um produto do pensamento? Quem é o outro?’ A psicanálise não responderá que o ‘outro é...’, mas se limitará a dizer: ‘ para responder a essa pergunta, construamos o objeto (a).’ A letra (a) é uma maneira de nomear a dificuldade; ela surge no lugar de uma não resposta”.

De uma certa maneira poderíamos dizer que o apaixonado mimetiza a letra (a)  na pessoa amada. O ser amado passa a ser a causa animadora dos desejos do ser apaixonado. Na ilusão de um ser total, completo, no qual nada falta, que lhe pode dar tudo e negar nada. Numa perspectiva lacaniana, o ser amado concebido desta maneira estaria no registro do (A) , grande Outro não barrado. Podemos ver aqui, uma suposta causa de inúmeros sofrimentos de amor, onde o ser apaixonado tenta alcançar no outro algo impossível, um gozo impossível. O assassinato ‘por amor’ talvez reflita um anseio, uma tentativa desesperada, de atingir o outro em sua  imaginada, desejada ‘essência’.

A desejada captura da ‘essência do outro’ na verdade refere-se à uma  busca de nós mesmos; uma procura não apenas de uma suposta  unidade perdida, como também da força determinante, pulsional que nos atravessa e nos constitui. Nos constitui como seres estranhos a nós mesmos. Talvez o ser apaixonado reproduza inconscientemente a alienação primordial ao Outro, numa tentativa de metabolizar (ao estilo da repeticão traumática) esta experiência infantil alienante/constitutiva. Um mergulho na própria imagem especular.

Nossas associações nos levam a pensar nas indicações de Freud quanto aos tipos de escolhas objetais sob as quais uma pessoa pode amar; seriam elas do tipo narcísico e do tipo anaclítico. Nunca encontramos essas categorias em seu estado puro, mas sim mescladas , sobressaindo um pouco mais desta do que daquela.

Na paixão o que talvez se destaque seja o amor narcisista, o qual corresponderia à :  a) o que ela própria é, b) o que ela própria foi,  c) o que ela própria gostaria de ser, d) alguém que foi uma vez parte dela mesma. Na atitude afetuosa dos pais para com os filhos, onde Freud reconhece uma revivência e reprodução do  próprio narcisismo infantil dos pais, estaria um   modelo de amor, entre um homem e uma mulher adultos, do qual falávamos.

Como Freud postula existiria ainda o modelo de relação por apoio ou analítico. A escolha objetal por apoio  se constrói à partir dos modelos das primeiras satisfações sexuais que se derivam da satisfação adquirida pelas pulsões do ego ou de auto-preservação. Entretanto, nos fica a pergunta, se não há ai também um  modelo predominantemente narcísico de ralação, pois como falávamos acima, os cuidados dos pais para com os filhos, se baseiam, desde a idade mais precoce, em princípios puramente narcísicos: “A criança terá mais divertimento que seus pais;  ela não ficará sujeita às necessidades que eles reconheceram como supremas na vida.

A doença, a morte, a renúncia ao prazer, restrições à sua vontade própria não a atingirão;  as leis da natureza e da sociedade serão ab-rogadas em seu favor; ela será mais um vez realmente o centro e o âmago da criação - ‘Sua majestade o Bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos.”

Será que estas categorias, analitica e narcísica, realmente fazem algum sentido para nós?

Será que o amor não é sempre um amor narcísico?

Mas, que espécie de amor/aproximação é esta?

 

Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clinico

 

Referencias

Valdivia, Olivia Bittencourt;  “A Linguagem Interminável dos Amores”;  Jornal do Federal  Nº34; 1993.
Freud, Sigmund;  “Obras Completas”;  Ed. Imago; 1969.
Platão;  “O Banquete”;  Edições 70;  1991.
Alain Miller, Jacques;  “ Percurso de Lacan - Uma Introdução”;  Ed. Zahar;  1994.
Barthes, Roland;  “Fragmentos de Um Discurso Amoroso”;  Ed. Franciso Alves;  1995.
Herrmman, Fabio;  “Andaimes do Real - Livro I”;  Ed. Brasiliense;  1991.
Nasio, J.-D.;  “Cinco Lições Sobre a Teoria de Jacques  Lacan”;  Ed. Zahar;  1993.
Souza, Paulo Cézar (organizador);  “Freud & O Gabinete do Dr. Lacan”;  Ed. Bras.;  1990.
Milan, Betty;  “O que é Amor”;  Ed. Brasiliense;  1991

em 02/07/2012

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