Os desafios da mulher e seu tempo
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Conversando com uma paciente sobre a liberdade da mulher e seus direitos, pois a mesma vem fazendo uma pesquisa maravilhosa para o livro que está escrevendo, falávamos sobre os avanços e as perdas.
Interessante como todos estão confusos em relação a essa nova mulher, que está em mais de 50% das casas brasileira sendo a responsável direta pela renda familiar.
Ainda em uma sociedade confusa e tentando manter o que era direito no passado, essas mulheres continuaram avançando, desafiando e buscando sua liberdade que aos poucos vem sendo alcançada, ainda passam por muitos sofrimentos.
Tais como: a perda do companheiro que muitas vezes não aceita que ela tenha mais estudos do que ele, acreditando que ele perde seu espaço, sua masculinidade e virilidade diante de uma mulher mais culta e com uma remuneração maior que a dele.
Sem contar a questão de ela ser vista em sociedade como figura de importância, sendo reconhecida por seus méritos e trabalho.
Outra perda lamentável é que essa mulher ainda sofre perseguições e preconceitos no meio da sua própria família.
Tias, primas e demais pessoas de sua convivência dês da infância, onde as lembranças são tão maternas e acolhedoras se depara com questionamentos sobre o direito da sua caminhada, suas conquistas e suas recompensas.
Essa mulher, como qualquer outra pessoa tem que fazer seus sacrifícios. Muitos não sabem que para cada avanço em nossa vida, escolhas foram feitas e renúncias também, muitos só vêem as vitrines como se estivessem no shopping, acreditando que na vida da outra pessoa só acontece o melhor e na dela tudo da errado.
Essa mulher faz renúncias, em determinado momento, como qualquer outra sonha com um casamento. Mas acima de tudo sonha com o respeito do parceiro, com sua segurança, com seu apoio, com o amor e o acolhimento.
Nunca pensou que esse homem possa se tornar um rival, ficar chateado com suas conquistas, falar mal dela para seus parentes, criar situações em casa para tentar submetê-la ao constrangimento.
Assim muitas mulheres no desejo de continuarem a crescer, a evoluir, a saber, até onde podem chegar infelizmente por perceber que seu companheiro não vai mais além do que aquilo é preciso deixá-lo com dor e sonhos no meio do caminho.
Para alguns é imperdoável, para outros é a conquista e a liberdade, pra ela é uma dor, pois lamentavelmente ela gostaria que o companheiro entendesse que tudo que se conquista é para os dois desfrutarem juntos.
As mulheres são mutantes, mulheres em transição. Como elas não ouvem outras antes. E as que vierem depois serão diferentes.
Tiveram coragem de começar um processo de mudança. E porque ainda está em curso, estão tendo que ter coragem de pagar por ele.
Que não seja, porém individualmente, em tantos sofrimentos calados. E sim em grupo, aos brados, como classe que reclama seus direitos, e cobra das outras classes aquilo que lhe faz falta.
Saíram de um estado que, embora insatisfatório, embora esmagador estivesse estruturado sobre certezas. Isso foi ontem. Até então ninguém duvidava do seu papel.
Nem homens, nem muito menos mulheres. Jamais passou pela cabeça de algumas avós a suspeita de que poderia ter sido profissional tão brilhante quanto os avôs, e gostado disso.
Era boa dona de casa, e quando nos jantares o marido baixava de leve a cabeça aprovando a comida, ela se considerava satisfeita. Tinha, na aprovação dele, a aprovação do mundo.
E se o molho dava certo era sinal de que tudo estava nos seus devidos lugares. Mas essa certeza as mulheres de hoje quebraram, para poder sair do cercado.
Não foram tão atiradas a ponto de quebrar tudo, sem ter o que botar no lugar. Elas tinham, têm uma nova certeza. Mais plena e bonita. Mas a substituição leva tempo.
A certeza a que renunciaram estava solidificada através de séculos, protegida por argumentações convincentes, que lançavam mão da natureza, do instinto, das vontades divinas, da missão fundamental.
Tudo começou tão ontem, que de fato ainda está começando. Se olharmos para frente, veremos apenas umas poucas pioneiras antes das atuais.
Se olharmos para trás vemos uma grande multidão que somente agora começa a acordar. A mudança não se fez. Está se fazendo. E, no “durante” do processo, impossível ter as respostas e as soluções já computadas...
Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico