Decidi não amar
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Tenho 26 anos, e enquanto muitas mulheres se ressentem porque se entregaram à vida, o meu problema é exatamente o oposto. Nunca vivi esses conflitos e frustrações.
Nunca tive um amor de verdade, nem de mentira. Sinto-me como uma “espiâ”, não sou platéia nem atriz nesse teatro da vida. E descubro que estar na intermediária, ou melhor, em lugar nenhum, é tão frustrante quanto estar nos extremos, sendo liberada ou recatada.
Eu aceito as novas idéias, respeito o ponto de vista de cada um, não condeno ninguém por suas opções sexuais. Mas escolhi conservar a minha virgindade, evitar o amor, em vez de me magoar pulando de uma paixão para outra. E por isso “sempre acabo sendo chamada de ‘quadrada e careta”.
Ressinto-me porque não aceitam que eu tenha optado por ser eu mesma, que eu me preserve porque acho que assim é melhor para mim, porque me dói menos. Mas, mesmo assim, sempre bate uma duvidazinha: é a melhor opção?
Resposta
Você diz que não é atriz nem platéia nesse teatro da vida. E parece consciente de que, afinal, não há outros papéis possíveis. A não ser, justamente, o de “espiã”, aquela que não estando de todo fora, mas também não estando dentro, espia entre as brechas das portas e as fechaduras de portas.
Atenta para não perder nada do que se passa, mas cuidando de não participar, você olha. Não critica. Não bate palmas. Mas também não vibra com a peça, não se deixa invadir pelas grandes emoções.
E é justamente com isso que o amor tem a ver com grandes emoções. Não com a castidade, ou com a liberação. É possível ser recatada, virgem, e ter amores ardentes. De verdade. Amores às vezes tão ou mais ardentes do que os de uma mulher liberada.
A história e o cotidiano estão aí para nos fornecer exemplos incontáveis. Se assim não fosse, o amor teria sido coisa bem rara até às recentes gerações.
Mas recato não é sinônimo de ausência. Pois a recatada participa, e pode ser atriz principal, embora obedecendo a um determinado padrão de comportamento.
É por isso que você não concorda quando a chamam de “quadrada”. Sabe que no fundo não é nem quadrada, se encaixa nos escaninhos comportamentais, já que esses escaninhos correspondem aos papéis da peça e de sua assistência, entre os quais você escolheu não estar.
E também não aceita essa definição porque, ao decidir o rumo da sua atuação, o fez movida não por questões morais, que implicariam julgamentos e divisões do tipo “certo”, “errado”, e que forçosamente a colocariam em oposição a outro modo de agir, mas sim por achar que assim “dói menos”.
Penso que é impossível que a ausência total de amor dos menos que o sofrimento causado pelos males amorosos. Pois a ausência de uma coisa não é o mesmo que apenas evitar os seus males, e sim o vazio, o nada absoluto, a não-experiência, enquanto que o sofrimento de amor é uma declaração de presença, de vitalidade, o sinal de que o bem do amor foi ou será possível.
O ponto crucial é que querer passar pela vida sem sofrer é utópico. Todos sonhamos com isso, porque o sofrimento, obviamente, dói, e o próprio instinto de conservação nos leva a fugir da dor, na tentativa de evitar a morte.
Mas todos sabemos, desde a primeira golfada de ar que incendeia de dor nossos pulmões recém nascidos, que dor e vida são indissolúveis.
Você pode, adotando uma postura que os outros equivocadamente consideram “quadrada”, manter-se afastada dos homens. Pode até evitar a dor que o amor por um homem eventualmente lhe traria.
Mas como pode evitar o amor pelos seus amigos, por um ou outro parente mais chegado, ou mesmo aquele amor fraterno pelo semelhante desconhecido que de repente nos acomete? E amando-os, como pode deixar de sofrer por eles, e com eles?
No amor, em qualquer amor, nunca sabemos onde se situam os limites que o separam do sofrimento. Nem podemos saber, em pleno sofrimento, quando chegará o momento em que um fato, ou um gesto, ou um impulso renovador nos devolverá à alegria.
Para poder fugir do sofrimento, portanto, seria necessário renunciar à felicidade. Mas, como perguntava eu antes, existe dor maior do que jamais ter ido feliz?
O feto bóia em seu líquido placentário, protegido do mundo. Essa é a imagem de beatitude que tentamos às vezes recriar através do alheamento. Esquecemos que o feto não está se furtando à vida.
Muito pelo contrário. Efetua o mais prodígio dos crescimentos, avançando rumo ao risco e à esperança do nascimento.
Você me pergunta se a sua é a melhor opção. Depende do que espera da vida. Se quiser passá-la sem vivê-la, pode até ser. Mas se desejar incendiar-se e sempre renascer, convém fazer outra escolha.
Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico