MELANIE KLEIN REVOLUCIONOU A PSICANÁLISE
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A austríaca Melanie Klein (1882-1960) contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da técnica de análise infantil, estudo que a tornou famosa. Mas não foi apenas isso. Sua experiência com as crianças permitiu a ampliação do campo da clínica em áreas consideradas impenetráveis ao tratamento, como em psicóticos, autistas e, até mesmo, neuróticos adultos.?
Diferente de outros nomes do ramo --Sigmund Freud (1856-1939), Jacques Lacan (1901-1980) e Carl Jung (1875-1961)--, Klein era uma pesquisadora autodidata.
Publicado em 1932, o livro "A Psicanálise de Crianças" é uma de suas principais obras. Embora eleger um só título dentre os 40 anos de pesquisa não faça justiça à evolução do pensamento kleiniano.
Melanie Klein morreu de câncer no dia 22 de setembro de 1960, em Londres. Pelo conjunto de seus trabalhos, revolucionou a pesquisa e a prática da psicologia.
A editora Folha lançou a obra "Melanie Klein", escrito por Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Luís Claudio Mendonça Figueiredo, volume da coleção "Folha Explica", que sintetiza os principais temas de sua obra.
Abaixo um trecho do livro.
PRIMEIROS TRABALHOS
Melanie Klein começou a fazer suas observações clínicas, a escrever e apresentar seus trabalhos em congressos a partir da década de 1920. Nesse período ainda não existe um pensamento kleiniano estruturado, mas ela já é capaz de chamar a atenção de seus mestres e colegas pela originalidade de suas intuições e pela coragem de suas propostas clínicas e teóricas.
Analisando crianças psicóticas, neuróticas obsessivas graves e também crianças mais saudáveis, Melanie Klein descobriu formas de violência associadas à sexualidade, como já vimos na Apresentação. Por isso mesmo que a preocupação com o excesso, a desmesura e a insaciabilidade do desejo marca o seu pensamento desde os primórdios.
Nesses primeiros textos da década de 20, Klein fala da voracidade, presente nos dinamismos oral, anal e fálico. Na dinâmica oral ocorre a fantasia inconsciente de sucção vampiresca e incorporação oral do objeto de amor. Em sua dimensão sádico-anal, a voracidade se expressa pelo desejo excessivo de posse, assim como pelo desejo de controle e completo domínio muscular sobre o objeto - o que leva o dinamismo "esfincteriano" à fantasia inconsciente de estreitar e estrangular o objeto.?
Em sua forma uretral e fálica, trata-se da ambição desmesurada ou ainda da competição e da fantasia inconsciente de penetrar, tomar posse e triunfar sobre o objeto de amor. Em seu texto "Tendências Criminosas em Crianças Normais" (1927), por exemplo, ela sugere que o imaginário sádico e ideias semelhantes às que levaram aos piores crimes também estão presentes no desenvolvimento normal de crianças absolutamente saudáveis.
Indo além da ênfase no excesso e na violência pulsional, uma intuição genial desta época - inspirada no ensaio "Pulsões e seus Destinos", de Freud - fará Klein dizer que a violência pulsional sofre uma inflexão sobre a própria pessoa, originando um "superego precoce", isto é, uma moralidade vingativa e tingida com a violência da pulsão. A lei de Talião e esta forma primitiva de "moral" - ou de fazer justiça com as próprias pulsões - mostram que são as próprias forças do id que, dispostas umas contra as outras, criam um universo de punições selvagens e sem medida. O amor pré-genital e a dificuldade de moderá-lo encontram-se entrelaçados aos mais cruéis castigos imaginários, tal como Freud havia intuído no caso O Homem dos Ratos, com a fantasia cruel dos ratos e de sua penetração anal.
Nesta época, o interesse de Melanie Klein também foi atraído pelo problema da inibição intelectual - ligada, pelo avesso, à curiosidade e ao desejo de conhecer. No universo freudiano, a pulsão de saber estava ligada à sexualidade, ao desejo de saber sobre sua origem. Antes de Freud, na linguagem bíblica, "conhecer" e amar sexualmente estão estreitamente associados.
Desde os Três Ensaios Sobre a Sexualidade (1905), Freud considerava que a chamada "pulsão de domínio" - uma pulsão do ego - acabava se convertendo em sadismo oral e anal - por infiltração da pulsão sexual, e podia então vir a sublimar-se, virando pulsão de saber. Nessa concepção, todo ato de conhecer envolve algum "domínio" sobre o objeto: o dinamismo oral de "devorar" e "incorporar", o fálico de "invadir" e "penetrar" associam-se ao erotismo sádico-anal com seus desdobramentos do erotismo muscular, pois será preciso "controlar, segurar, possuir, manipular, abrir e dissecar" o objeto a ser conhecido. Mesmo quando todas essas formas de sadismo são sublimadas em curiosidade e desejo de conhecer, pode-se discernir sempre uma manifestação de violência, intrínseca a toda forma de conhecer e de aprender (ou apreender, capturar).
Melanie Klein observou crianças com inibições intelectuais e levantou a hipótese de que elas não haviam tolerado o seu sadismo infantil, reprimindo-o muito precocemente, pois foram invadidas de angústias muito intensas, ao passo que crianças mais "livremente sádicas" teriam tido tempo para sublimar sua violência, na forma de curiosidade e desejo de saber. Estas podiam aprender, brincar e criar. Sua prática terapêutica foi, então, desentranhar as fantasias sádicas do paciente inibido, e através da palavra e do setting analíticos, criar condições para que se transformassem em desejo de saber, libertando-o da inibição intelectual.