Minha mãe quer me controlar
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Tenho 25 anos, mas minha mãe faz com que eu me sinta culpada, acuada e até mesmo velha. Ela me diz que vivo perdendo tempo, porque parei de estudar há cinco anos e só agora recomecei.
Diz que não namoro porque não quero. Está sempre pronta a fazer um comentário maldoso a meu respeito.
Se compro algo, diz que sou tola, que confio demais nos outros. E não me deixa decidir por mim mesma, opinar, escolher o que acho melhor.
Minha mãe sempre soube me controlar, desde pequena, desde quando se desquitou do meu pai.
E houve épocas em que me desestruturou completamente, obrigando-me a ver que era ela quem sempre tinha razão em tudo.
Tenho medo de que ela me tome o resto de personalidade que ainda me resta. Eu a amo sou sua única filha, e quando vou chorar no seu ombro ela sabe me consolar. Mas é do seu gênio mandão e dominador que tenho medo. E quase sempre fujo.
Resposta
Se você perguntasse à sua mãe quais são os limites para o exercício do amor materno, dificilmente ela que “sabe tudo” conseguiria responder. E não por falta de vontade de chegar à resposta, mas porque esses limites são muito tênues e em geral só pensamos neles quando foram, há muito, ultrapassados.
À mãe cabe, em linhas gerais, cuidar, proteger, formar e amar. Isso com mais intensidade na primeira infância, diminuindo à medida que o filho cresce. Para só ficar, eterno e com idêntica força, o ultimo item.
Muitas mães, porém, prolongam ilusoriamente a infância do filho, insistindo em prodigalizar-lhe os mesmos cuidados de quando era bebê. O cuidar torna-se então sufocante, a proteção castradora, e em vez de formar deformam. Quanto ao amor, muita carência e muita possessividade podem esconder-se sob sua bandeira.
Sua mãe a controla desde pequena. Provavelmente, desde quando seus pais se separaram, ela a elegeu como seu bem mais precioso. Tendo perdido o marido, não perderia a filha.
Para isso era necessário que você não crescesse, continuasse sendo para sempre a filhinha amada e dependente que recorreria a ela para dar qualquer mínimo passo.
Como você diz, “ela não me deixa decidir por mim mesma”. Ela não deixa porque decidir significa ser livre, no caso, significaria prescindir dela, afastar-se. A melhor maneira de evitar que você enveredasse pelo perigoso caminho da autodeterminação era convencendo-a de que nada sabia, que suas decisões eram sempre erradas.
É por isso que ela consola você tão bem quando erra. O seu erro é a vitória dela. Consolando, reassume o papel de mãe da criança pequena, que sopra no dodói, demonstrando-se onipotente e indispensável.
Não à toa ela diz que você é muito crédula, confia demais nos outros e se dá mal. O que ela quer mesmo dizer é que você não deve confiar nos outros – amigos escolhidos por você e sobre os quais ela não tem controle – mas nela, pois só ela sabe realmente o que é bom para você.
E como é que você escapa? Fazendo o que ela não soube fazer, estabelecendo os limites. Não é fácil, mas me parece que você já está organizando isso. Primeiro, fortalecendo-se ao voltar ao estudo. Segundo, saindo,fisicamente, de junto dela, indo morar em outro lugar. Terceiro, e mais importante, tentando separar aquilo que é amor daquilo que é ódio por ela dentro de você.
O raio é a culpa. Toda vez que sentimos ódio de pai ou mãe entramos numa culpa danada, esquecidos de que amor e ódio coexistem em todos os amores. Lembre-se, porém, que nesse caso, a culpa facilita o jogo dela, pois enfraquece você, remetendo-a direto para aquele colo tão perigosamente acolhedor.
Você diz que se sente velha. Será que não está assumindo a personalidade da sua mãe em detrimento da sua? Mas acredito que você própria já está tratando de limpar o espelho, e procurar a sua verdadeira imagem.
Ronaldo de Mattos - Psicanalista Clínico